
Acordei no meio da noite com meu coração acelerado. Ismael dormia pesado ao meu lado. Levantei-me sem fazer barulho e peguei a cesta de palha. Nela coloquei quatro velas brancas, o sino, o suco de uva e a taça. Voltei até o quarto e dei um beijo delicado em sua testa.
A noite estava fria, a lua cheia e formosa a me esperar. Usava apenas um xale e a camisola fina, comprida de renda branca.
Peguei a curta trilha pelo lado esquerdo da casa, em menos de dez minutos estava com os pés na areia. Escolhi um cantinho especial naquela praia. A praia na qual brinquei quando tinha cinco, e onde provavelmente minha pequena colocaria os seus pezinhos quando já pudesse dar alguns passos.
Tracei o círculo com uma paz imensa em meu corpo. Cavei quatro buraquinhos em cada lugar do quadrante. Acendi as velas e as coloquei em seus devidos lugares. Olhando para o céu estrelado e para a lua iluminando toda a atmosfera ao meu redor, então disse:
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“Esta é uma noite de lua cheia, um formidável momento para a grande manifestação positiva. Com todo meu coração, digo e afirmo: Sou tua filha, Deusa. Estou diante de ti agora e sempre. Deixe-me sentir tua presença em meu corpo e espírito, grande mãe, nesta noite de magia e poder”.Fui até o leste, e diante de sua energia, toquei o sino dizendo:
- Ar, permita-me sentir a presença da grande mãe dentro de mente.
Ao sul, tocando novamente o sino, disse:
- Fogo, permita-me sentir a presença da grande mãe dentro de meu espírito.
Ao Oeste fui e com a mesma devoção, disse:
- Água, permita-me sentir a presença da grande mãe dentro de minhas emoções.
Ao Norte caminhei lentamente, toquei o sino e novamente disse:
- Terra, permita-me sentir a presença da grande mãe dentro de meu corpo.
Senti uma vibração repentina. Deixei aquela paz e bons sentimentos transitarem de meu corpo para meu espírito, naturalmente.
Deixei o sino, e fui até o norte. Com os braços levantados ao céu, disse com toda a minha fé:
- “Grande mãe, senhora da luz, da lua, da natureza, da magia e dos animais. Saúdo-te nesse instante, com toda a energia plena que transcorre em meu corpo. Dentro de você, eu estou. Venha e me tome com a sua presença”.
Fechei meus olhos e me permiti viajar naquele transe. Logo uma onda de pensamentos vieram à tona. Como era engraçado fazer isso já adulta, quando a tendência seria me tornar cada vez mais cética e racional. Tinha praticado o ato de iniciação aos quatorze, e estava ali, com vinte e oito. Eu e minha bebê, dentro de mim.
Em pensamentos, disse à grande senhora:
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“Mãe, como sua filha e devota, estou aqui para pedir luz e benção para a minha pequena que está dentro de mim. Ilumine toda a sua formação e todo o seu caminho quando chegar a este mundo. Que ela tenha a luz em seus olhos, e ilumine a quem olhar. Que ela tenha a simplicidade dos raios de sol que trazem a vida, sem se cansar. Que ela tenha o coração bom, saiba encontrar os bons caminhos e não se canse de tentar”.Em voz alta, ainda sentindo todas as vibrações positivas, disse:
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“Dedico todo o meu amor, honra e bondade a ti, Deusa Mãe. Tu que és a grande concepção, o alimento, a casa, o lar, a natureza e o mundo. O amor materno presente em toda mulher” – Levantei a taça e continuei –
“A ti, minha mãe, e a todos os deuses antigos”.
Bebi aquele suco e agradeci.
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“Que assim seja, para o bem todos”.
Desfiz o círculo mágico, podia sentir uma energia correndo por cada parte mim. Abri a canga e deitei-me ao relento. Fiquei observando as constelações. Sentia-me tão leve e plena comigo mesma! Como algo tão simples poderia canalizar algo tão forte?
- Maryen? – Era Ismael que me chamava. – O que está fazendo aqui fora? Te procurei por toda a casa... Quase me deu um susto, mulher.
- Vem, deite-se aqui do meu ladinho.
Ismael deitou-se e ficou acariciando a minha barriga, cantalorando uma canção. Pude sentir quando a bebê se mexeu pela primeira vez! Foi mágico! Ela praticamente tinha dado um sinal de que estava ali, ouvindo-nos e sentindo-nos.