terça-feira, janeiro 30, 2007

Em uma mesma paisagem.

A camisa num tom azul claro e os olhinhos admirando o horizonte, pensamentos soltos seguidos de um sorriso de canto.
As águas tranqüilas, o céu com um rosa tímido sendo dominado pelo amanhecer.
A mesma imagem durante dias, noites e até madrugadas. Focalizada, clicada com cuidado, seguido do melhor ângulo.
Anseios sem ansiedade. Vontade de só estar do lado, em cima, em baixo, de cabeça pra baixo!
E como o vento que toca a areia, a areia que toca os cabelos, o pescoço e as costas da menina, ficou o desejo de cuidar. Não um cuidado possessivo de ter só para ela, entre quatro paredes para sempre, mas um cuidado sem interesses, juras, promessas ou dívidas.
A menina que vive e que sonha, apesar de todo momento de ressaca do mar, sorri extremamente feliz. Olha para trás e gargalha. A cena é captada por outro olhar. Um olhar carinhoso. Um olhar que a faz muito bem.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

A metamorfose dos 40.

O quadro da sala de jantar estava sempre lá. Imóvel e solitário na parede. Todos os dias, eu jantava sozinho de frente para aquela imagem. Uma fazenda, um gramado com inúmeras margaridas e uma menina na varanda.
A menina parecia tão sozinha naquela varanda quanto eu naquela casa. Éramos cúmplices e confidentes. Ela usava um vestidinho cor de rosa. Eu podia sentir que a menina de dezessete anos era uma boa amiga, escutava todas as minhas palavras sem contestar uma delas.
O quadro tinha sido pintado pela minha falecida mãe. Vítima de esquizofrenia, ela usava da arte para amenizar e reproduzir seus devaneios.
Dona Augusta disse que havia pintado aquela menina para me fazer companhia, na época eu também tinha dezessete anos. Agora com quarenta, dinheiro no banco e uma casa vazia, sentia uma grande angústia por ter uma menina em um quadro como lamento.
Inúmeras vezes me questionei porque minha mãe jamais tinha me pintado naquele quadro também, já que o intuito era não me deixar sozinho. Ficava horas imaginando como poderia ser a vida no campo. A liberdade de poder andar desalinhado, sujar os pés de lama e ter um manga larga marchador.
Era meia noite e fui beber um vinho. Várias taças, depois o gargalo e pude notar que a menina não estava mais no quadro. Notei pegadas de tinta pela sala e levei um susto! Só podia estar completamente bêbado ou desenvolvendo um quadro esquizofrênico. A menina estava em minha frente e sorria desajeitada.
Serelepe, ela se aproximou de mim me dando um beijinho carinhoso na ponta do nariz, depois nos olhos, logo não pude me conter e a beijei. Como era possível? A menina que me via dormir e acordar, comer e reclamar, estática em um quadro, estava agora materializada em carne e em osso em meus braços? Loucura total.
- Pare, criatura – disse afastando-a de mim. – Volte de onde veio. Está tirando a minha sã consciência.
- Não quero voltar para aquele lugar. É muito triste ter que te ver todos os dias passando de um lado para o outro e não poder te tocar... – dizia a menina da fazenda com tanta inocência.
Por um instante, tudo entendi. Estava sonhando! Só podia estar sonhando! Tinha sido burro em me martirizar... Então, tudo que me restava a fazer era dormir com a menina linda, jovem e inocente em minha cama e acordar como se nada tivesse acontecido, porque na realidade, não teria acontecido.
E assim fiz. Não fui canalha, muito menos insensível. Resolvi realmente ter uma noite de amor sincera e deixar que os sentimentos fossem envolvidos e misturados entre aqueles lençóis frios.
A menina de dezessete anos, vestido cor de rosa e cabelos loiros não temia, parecia esperar por aquilo há anos. Estava apenas eufórica e ansiosa por ser sua primeira vez, no entanto, se entregava como se confiasse sua alma a mim.
E naquele suspiro de alívio e alegria, eu senti mais do que amor, algo que transcendia nomes e nomenclaturas. A envolvi em meus braços e dormi dentro de meu próprio sonho.

Senti dores de cabeça. Abri os olhos, irritado com a claridade que entrava pela janela. Olhei para o lado e a menina não estava lá. Tinha sido um sonho, um bom sonho.
Fui até a sala apenas para observar o quadro e a menina na qual tinha me dado uma das noites mais deliciosas, mesmo sendo imaginária. A menina estava na varanda, no entanto, não era mais uma menina, aparentava estar bem mais velha, na realidade, parecia ser de minha idade. E como estava bela!
Continuei a percorrer os olhos pelo quadro para ver se encontrava mais algum traço diferente e lá estava ele no jardim. Um bebê, um menino.
Naquele instante tive a certeza de que era o meu menino. Não sei como explicar como isso tudo aconteceu... Mas tinha uma intuição. E não era o efeito do álcool que me fazia ter delírios, na verdade, eu só me permitia a diferentes perspectivas através dele, infelizmente.
Passei o dia todo ansioso esperando que anoitecesse. Quando deu meia noite, bebi novamente um vinho, praticamente a mesma quantidade da noite anterior, porém, não vi pegadas de tinta e muito menos ela materializada em minha frente. Minha visão foi ficando confusa, turva, senti que algo estranho acontecia em mim. Senti a textura do meu corpo se modificar.
Quando consegui abrir os olhos novamente e ter a visão clara do que acontecia fiquei com o coração explodindo de tanta felicidade. Eu tinha ido para onde queria ir. Eu era de tinta a óleo e fazia parte daquele quadro para toda a eternidade.

domingo, janeiro 14, 2007

A revolta das vaquinhas.

Da janela do meu quarto podia ver o pasto. O sol tocando a terra fresca, o mato ainda úmido pela chuva da matina.
Bois, vacas e bezerros pastavam sem nada esperar. Comiam, ruminavam incessantemente durante horas para depois fertilizarem a terra novamente com sua matéria orgânica e inorgânica.
De longe, podia ver um homem com um cachorro ao lado. Tinha chegado a hora de ordenhar o gado e levar até o curral de espera. O cachorro vinha impondo medo, rosnando e latindo, organizando os bichinhos que atendiam sem contestar.
Logo, escolheriam a mais gorda para abater. Eu sentia pena. Simplesmente pena. Eles não tinham a voz para dizer que aquilo era injusto, para dizer que não queriam. Muitos tinham seus bezerrinhos e não queriam deixa-los para trás, pois logo virariam bifes e peças.
Dia após dia eu via o processo e queria algo mudar. De madrugada, saí pé ante pé, sem barulho fazer.
Entrei na baia e lá estavam eles, descansando para o dia seguinte. O dia seguinte seria exatamente como o anterior. Comer, defecar, reproduzir, dormir ou serem abatidos.
- Vaca Maria, Vaca Maria – eu chamava. – Acorde, vaquinha.
- O que foi? Quem é você, humana? – perguntava a vaca irritada por ter sido acordada de madrugada.
- Sou filha do dono da fazenda, mas não concordo com nada disso. Você tem vontade de ser livre? De poder pastar onde quiser e não ter que servir sendo comida de gente?
- Ora, ora, minha menina. Como vou ser livre, se dependo desse pasto para comer e criar os meus filhos?
- Mas existem muitos pastos por aí! Muitos pastos bonitos e agradáveis para a senhora poder criar o seu rebanho.
A vaca Maria pensou por instantes. Ela começava a ficar eufórica com a idéia.
- Então o que podemos fazer? – perguntava com os olhinhos vibrando de emoção.
- Nunca reparou que vocês são muitas? É somente um cachorro para inúmeras vacas e bois! Vocês estão todos os dias fazendo a mesma coisa e nunca pensaram em revolução? Parecem que estão hipnotizadas e aceitam essas condições há anos!
- É verdade. Eu confesso que não sou muito feliz em saber que a qualquer momento posso virar comida de gente, mas me conformei com essa idéia. Não sabia como fazer algo para mudar essa história, afinal, todos os meus antepassados passaram pela mesma coisa. São anos de exploração e matança.
- Mas eu te digo que tem como mudar o destino de seus filhos!

Amanheceu, e da janela eu estava ansiosa observando os passos das vacas e dos bois. De longe pude ver o meu pai se aproximando com o pastor alemão. O bicho vinha como se estivesse possuído, louco para que alguma delas dessem bobeira para poder fincar os dentinhos afiados numa daquelas perninhas carnudas.
O rebanho estava aflito, eu podia ver que não estavam confiando tanto assim neles mesmos. Eles se ordenhavam como de costume, no entanto, de um segundo para o outro, a vaca Maria parou e empacou. Lá foi o cachorro para atenta-la. Mordeu o quanto pode suas pernas, a vaca Maria parecia não ter reação. Não parecia sentir dor ou qualquer outra coisa. Ela não seguiu o meu plano, mas realizou o dela sendo isca para salvar todo o resto.
O rebanho entendeu exatamente o que acontecia, muitas aproveitaram a oportunidade e correram para longe guiando os bezerrinhos. No entanto, algumas tomaram coragem e deram uma corrida em meu pai e no cachorro.A vaca Maria deitou no pasto sozinha e mandou o resto ir embora. Da janela eu podia ver o seu olhar e um sorriso. Ela agradecia de coração e estava leve. Podia dormir em paz com a sensação de ter mudado o destino de inúmeros bezerrinhos.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Sonho.

Tive um sonho muito curioso de ontem para hoje. Pela primeira vez, não fiquei tentando encontrar um sentido além e pude perceber claramente o que se passava dentro de mim.
Primeiramente, estava viajando com um grupo de amigos, estávamos em um acampamento, algo do tipo. Eu fui a última a tomar banho para podermos seguir viagem. Quase fui deixada para trás, se não fossem Pereira e Nina.
Logo, fomos andar pelo local para procurar um banheiro para mim, minhas roupas estavam todas espalhadas e tive que organizar a mala. De um instante para o outro, chegamos em uma praia, o mar estava revolto e eu não conhecia as pessoas ao meu redor - que se banhavam - além de meus amigos. Uma onda me puxou, eu carregava uma mala e não queria deixar o mar levar, porém, com aquele peso, não conseguia fazer força para nadar. Eu estava quase me afogando, mas ainda existia um sopro de vida, uma força que me fazia lutar sem deixar a mala ir com as ondas.
Precisei gritar alguém, uma mulher que nunca vi nada vida me ajudou, outras pessoas também, logo Pereira e Nina conseguiram me puxar. Eles me incentivavam, me diziam frases de estímulo.
Acordei com o telefone tocando, tenho certeza de que perdi algumas partes do sonho por ter acordado no susto.
Para mim, a interpretação é clara. Estou confusa com o meu futuro. Não sei direito para onde vou - se fico, ou se vou -. Meus amigos do sonho realmente estão tendo esse papel na minha vida. Tentam clarear a minha mente, me dão apoio e estão do meu lado sempre com muito carinho.
Fui a última para tomar o banho, pois na realidade, a maioria deles estão com o "destino encaminhado", eu estou sendo a última. As roupas espalhadas creio que demonstra os conflitos, talvez de sentimentos e pensamentos. O mar significa o próprio destino, que tenta me puxar para um lado, sendo que quero muito ir para o outro. Porém, ele é muito mais forte do que eu. A mala, a minha culpa e talvez os meus desejos e objetivos, sendo que para sobreviver e alcançar o que realmente quero - ficar em terra firme com os meus amigos - tenho que quebrar o meu orgulho e pedir ajuda do desconhecido.
Uma mulher me dá a mão, o resto das pessoas me puxam. Assim que me sinto segura, percebo que eles se apresentam dizendo que são donos de algumas empresas. Isso é realmente muito engraçado, já que na realidade eu precisaria ter meus pais em alguma empresa filiada do Rio de Janeiro para ganhar descontos na faculdade.
Percebo que Pereira e Nina estão por ali e sou recebida pelos dois. Essa parte para mim já tem um outro significado, não quer dizer que eu vou com certeza para perto deles, mas apesar de todas as dificuldades, estaremos juntos.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Rua Dias Ferreira, Leblon, Rio de Janeiro.

Estávamos prontas no hall do apartamento conversando, enquanto esperávamos Marcos nos buscar.
Fomos em cinco. Marcela, eu, Marcos e dois amigos que não conhecíamos.
Na época eu cursava comunicação, dividia apartamento com a minha amiga e freqüentava os melhores lugares da noite carioca.
A rua era Dias Ferreira, no Leblon. Já tinha ido algumas vezes em outros bares por ali, mas nunca aquele.
Ambiente aconchegante, tocava uma música de Diana Krall ao fundo chamada Devil my care. Eu não esperava nada demais daquela noite. Era uma daquelas que se sai sem nada esperar e geralmente acontece algo de inusitado.
Eu estava muito mais atraente que Marcela. Podia sentir que os olhares dos meninos passeavam entre os quadris do ambiente e de relance pousavam sob meu decote. Ela se comportava como sempre... O mesmo jeitinho sem sal, e eu podia sentir pulsando em mim aquele desejo de sempre, o desejo de tentar.
Não de tentar fazendo com que se apaixonassem por mim, simplesmente era aquela vontade inexplicável de tentar com brincadeiras irônicas e apimentadas.
Marcela já estava acostumada com os meus momentos, e apenas observava o jogo dos egos.
- Seja sincera comigo Marcela... – dizia Marcos enquanto bebia um gole do chopp rapidamente -. Você colocou esse decote hoje só porque sabe que não consigo desviar o olhar.
Eu sorri e falei:
- Você diz isso porque não imagina a cor da peça que eu estou por baixo... – cutuquei sabendo que ele tinha fetiche por calcinhas pretas.
- Não vai dizer que é preta... – dizia ele se estremecendo.
O coitado jogava, só que eu conseguia pegar mais pesado. Ele não controlava nem as reações, muito menos a imaginação.
- Ela fica te tentando de bobeira, Marcos. Quem fala demais, você já sabe... – dizia o irmão de Marcos, o André.
- Ah, André. Qual o seu problema? Você tem medo de mulher? É o único que fica se esquivando da conversa... Dorme lá em casa hoje que eu e Marcela resolvemos o seu problema rapidinho! – disse à ele me aproximando.
Marcela caiu na risada, mas não se pronunciou. O André não sabia onde enfiar a cara, ficou vermelho! Ele era tímido, tadinho... Já o André era o mais atirado da história.
Fiquei observando enquanto eles riam e falavam besteiras. Até que o Marcos dava para o gasto, mas eu não estava tão carente assim para passar a noite com ele. A situação era simples. Eu seduzia por seduzir... Tinha me acostumado com aquele papel, conseguia facilitar muitas coisas com isso. Com muitos deles, não evoluía em nada, nem um beijinho, eu me sentia o máximo por saber que eu podia controlar a situação e ter qualquer um daquela mesa.
Exatamente por saber disso, não hesitei em fazer o que fiz. Enquanto eles discutiam sobre o campeonato estadual de futebol e se distraíam supondo a convocação dos jogadores, puxei Marcela até o banheiro.
- Má, preste atenção... Você lembra daquele carinha da faculdade... O Marcelo? Que faz Engenharia de Produção... – perguntei enquanto abotoava o zíper.
- Sei... O que tem? Você viu ele por aí? – perguntou ela eufórica.
- Sim... Ele tá numa mesa a nossa esquerda, mais ao fundo. Você volta pra mesa dos meninos que eu vou até lá falar com ele. Toma, leva a minha bolsa.
Dei uma olhada rápida no espelho, tudo certo. Me aproximei da mesa e ele me notou.
- Laila! Não esperava encontrar você por aqui hoje... – dizia ele me puxando e dando-me um beijo no rosto.
Ele bebia sozinho.
- Está sozinho? – perguntei.
- É, estou... Tinha combinado de encontrar um amigo meu por aqui, mas ele teve um problema... Não me importo de beber sozinho. Você está com alguém aqui?
- Estou com uma amiga... Mas ela está de rolo com um cara por ali... Sabe como é, não quis atrapalhar.
- Então sente aqui comigo, vamos conversar. Você quer beber alguma coisa? Que tal um vinho?
- Ótimo.
Conversa vai, conversa vem. Eu não tinha coragem de arriscar com ele o meu lado de pura sedução. Eu pensava e analisava o que falar, para não errar e ser mal interpretada. Marcelo era diferente. Era requintado, de um humor contido e muito agradável. Não parecia que algum dia iria se referir ao meu decote descaradamente, na verdade, nem olhava para ele.
Eu me sentia completamente atraída. E no fundo eu não conseguia ter a certeza de que ele queria algo ou não comigo.
Por curiosidade, olhei para trás por instantes e não vi mais o pessoal. Nem sinal de Marcela... E ela ainda tinha ido embora com as minhas coisas! Eu fiquei sem um puto no bolso para voltar para casa, a minha esperança era de que Marcelo me deixasse em casa.
- Laila, vem cá – ele falava em meu ouvido. – Não tem problema se não encontrar sua amiga... A gente pode ir lá pra casa, dar continuidade a esse vinho, a essa conversa e quem sabe fazer aquilo que você também quer. Vou te comer todinha, gatinha.
Eu fiquei com muito nojo. Ele só queria me comer! Que tarado! Que maníaco! Agradeci o vinho e fui até a rua para pegar um táxi. Consegui parar apenas um:
- Não levo puta – disse o filho de uma puta.
Fui andando, descalça, pois não agüentava mais o salto. Cheguei em casa, acendi as luzes. Um susto. Vi sapatos de homem espalhado pela sala.
Marcela estava em minha cama com Marcos. Muito bem, tive que dormir na sala, bêbada, com calos nos pés e chupando dedo.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Esbat para abençoar.


Acordei no meio da noite com meu coração acelerado. Ismael dormia pesado ao meu lado. Levantei-me sem fazer barulho e peguei a cesta de palha. Nela coloquei quatro velas brancas, o sino, o suco de uva e a taça. Voltei até o quarto e dei um beijo delicado em sua testa.
A noite estava fria, a lua cheia e formosa a me esperar. Usava apenas um xale e a camisola fina, comprida de renda branca.
Peguei a curta trilha pelo lado esquerdo da casa, em menos de dez minutos estava com os pés na areia. Escolhi um cantinho especial naquela praia. A praia na qual brinquei quando tinha cinco, e onde provavelmente minha pequena colocaria os seus pezinhos quando já pudesse dar alguns passos.
Tracei o círculo com uma paz imensa em meu corpo. Cavei quatro buraquinhos em cada lugar do quadrante. Acendi as velas e as coloquei em seus devidos lugares. Olhando para o céu estrelado e para a lua iluminando toda a atmosfera ao meu redor, então disse:
- “Esta é uma noite de lua cheia, um formidável momento para a grande manifestação positiva. Com todo meu coração, digo e afirmo: Sou tua filha, Deusa. Estou diante de ti agora e sempre. Deixe-me sentir tua presença em meu corpo e espírito, grande mãe, nesta noite de magia e poder”.
Fui até o leste, e diante de sua energia, toquei o sino dizendo:
- Ar, permita-me sentir a presença da grande mãe dentro de mente.
Ao sul, tocando novamente o sino, disse:
- Fogo, permita-me sentir a presença da grande mãe dentro de meu espírito.
Ao Oeste fui e com a mesma devoção, disse:
- Água, permita-me sentir a presença da grande mãe dentro de minhas emoções.
Ao Norte caminhei lentamente, toquei o sino e novamente disse:
- Terra, permita-me sentir a presença da grande mãe dentro de meu corpo.
Senti uma vibração repentina. Deixei aquela paz e bons sentimentos transitarem de meu corpo para meu espírito, naturalmente.
Deixei o sino, e fui até o norte. Com os braços levantados ao céu, disse com toda a minha fé:
- “Grande mãe, senhora da luz, da lua, da natureza, da magia e dos animais. Saúdo-te nesse instante, com toda a energia plena que transcorre em meu corpo. Dentro de você, eu estou. Venha e me tome com a sua presença”.
Fechei meus olhos e me permiti viajar naquele transe. Logo uma onda de pensamentos vieram à tona. Como era engraçado fazer isso já adulta, quando a tendência seria me tornar cada vez mais cética e racional. Tinha praticado o ato de iniciação aos quatorze, e estava ali, com vinte e oito. Eu e minha bebê, dentro de mim.
Em pensamentos, disse à grande senhora:
- “Mãe, como sua filha e devota, estou aqui para pedir luz e benção para a minha pequena que está dentro de mim. Ilumine toda a sua formação e todo o seu caminho quando chegar a este mundo. Que ela tenha a luz em seus olhos, e ilumine a quem olhar. Que ela tenha a simplicidade dos raios de sol que trazem a vida, sem se cansar. Que ela tenha o coração bom, saiba encontrar os bons caminhos e não se canse de tentar”.
Em voz alta, ainda sentindo todas as vibrações positivas, disse:
- “Dedico todo o meu amor, honra e bondade a ti, Deusa Mãe. Tu que és a grande concepção, o alimento, a casa, o lar, a natureza e o mundo. O amor materno presente em toda mulher” – Levantei a taça e continuei – “A ti, minha mãe, e a todos os deuses antigos”.
Bebi aquele suco e agradeci.
- “Que assim seja, para o bem todos”.
Desfiz o círculo mágico, podia sentir uma energia correndo por cada parte mim. Abri a canga e deitei-me ao relento. Fiquei observando as constelações. Sentia-me tão leve e plena comigo mesma! Como algo tão simples poderia canalizar algo tão forte?
- Maryen? – Era Ismael que me chamava. – O que está fazendo aqui fora? Te procurei por toda a casa... Quase me deu um susto, mulher.
- Vem, deite-se aqui do meu ladinho.
Ismael deitou-se e ficou acariciando a minha barriga, cantalorando uma canção. Pude sentir quando a bebê se mexeu pela primeira vez! Foi mágico! Ela praticamente tinha dado um sinal de que estava ali, ouvindo-nos e sentindo-nos.