quinta-feira, janeiro 18, 2007

A metamorfose dos 40.

O quadro da sala de jantar estava sempre lá. Imóvel e solitário na parede. Todos os dias, eu jantava sozinho de frente para aquela imagem. Uma fazenda, um gramado com inúmeras margaridas e uma menina na varanda.
A menina parecia tão sozinha naquela varanda quanto eu naquela casa. Éramos cúmplices e confidentes. Ela usava um vestidinho cor de rosa. Eu podia sentir que a menina de dezessete anos era uma boa amiga, escutava todas as minhas palavras sem contestar uma delas.
O quadro tinha sido pintado pela minha falecida mãe. Vítima de esquizofrenia, ela usava da arte para amenizar e reproduzir seus devaneios.
Dona Augusta disse que havia pintado aquela menina para me fazer companhia, na época eu também tinha dezessete anos. Agora com quarenta, dinheiro no banco e uma casa vazia, sentia uma grande angústia por ter uma menina em um quadro como lamento.
Inúmeras vezes me questionei porque minha mãe jamais tinha me pintado naquele quadro também, já que o intuito era não me deixar sozinho. Ficava horas imaginando como poderia ser a vida no campo. A liberdade de poder andar desalinhado, sujar os pés de lama e ter um manga larga marchador.
Era meia noite e fui beber um vinho. Várias taças, depois o gargalo e pude notar que a menina não estava mais no quadro. Notei pegadas de tinta pela sala e levei um susto! Só podia estar completamente bêbado ou desenvolvendo um quadro esquizofrênico. A menina estava em minha frente e sorria desajeitada.
Serelepe, ela se aproximou de mim me dando um beijinho carinhoso na ponta do nariz, depois nos olhos, logo não pude me conter e a beijei. Como era possível? A menina que me via dormir e acordar, comer e reclamar, estática em um quadro, estava agora materializada em carne e em osso em meus braços? Loucura total.
- Pare, criatura – disse afastando-a de mim. – Volte de onde veio. Está tirando a minha sã consciência.
- Não quero voltar para aquele lugar. É muito triste ter que te ver todos os dias passando de um lado para o outro e não poder te tocar... – dizia a menina da fazenda com tanta inocência.
Por um instante, tudo entendi. Estava sonhando! Só podia estar sonhando! Tinha sido burro em me martirizar... Então, tudo que me restava a fazer era dormir com a menina linda, jovem e inocente em minha cama e acordar como se nada tivesse acontecido, porque na realidade, não teria acontecido.
E assim fiz. Não fui canalha, muito menos insensível. Resolvi realmente ter uma noite de amor sincera e deixar que os sentimentos fossem envolvidos e misturados entre aqueles lençóis frios.
A menina de dezessete anos, vestido cor de rosa e cabelos loiros não temia, parecia esperar por aquilo há anos. Estava apenas eufórica e ansiosa por ser sua primeira vez, no entanto, se entregava como se confiasse sua alma a mim.
E naquele suspiro de alívio e alegria, eu senti mais do que amor, algo que transcendia nomes e nomenclaturas. A envolvi em meus braços e dormi dentro de meu próprio sonho.

Senti dores de cabeça. Abri os olhos, irritado com a claridade que entrava pela janela. Olhei para o lado e a menina não estava lá. Tinha sido um sonho, um bom sonho.
Fui até a sala apenas para observar o quadro e a menina na qual tinha me dado uma das noites mais deliciosas, mesmo sendo imaginária. A menina estava na varanda, no entanto, não era mais uma menina, aparentava estar bem mais velha, na realidade, parecia ser de minha idade. E como estava bela!
Continuei a percorrer os olhos pelo quadro para ver se encontrava mais algum traço diferente e lá estava ele no jardim. Um bebê, um menino.
Naquele instante tive a certeza de que era o meu menino. Não sei como explicar como isso tudo aconteceu... Mas tinha uma intuição. E não era o efeito do álcool que me fazia ter delírios, na verdade, eu só me permitia a diferentes perspectivas através dele, infelizmente.
Passei o dia todo ansioso esperando que anoitecesse. Quando deu meia noite, bebi novamente um vinho, praticamente a mesma quantidade da noite anterior, porém, não vi pegadas de tinta e muito menos ela materializada em minha frente. Minha visão foi ficando confusa, turva, senti que algo estranho acontecia em mim. Senti a textura do meu corpo se modificar.
Quando consegui abrir os olhos novamente e ter a visão clara do que acontecia fiquei com o coração explodindo de tanta felicidade. Eu tinha ido para onde queria ir. Eu era de tinta a óleo e fazia parte daquele quadro para toda a eternidade.

3 Comments:

Blogger João Ventura said...

Tem certeza que o cara tomou vinho, e não ácido?

8:36 AM  
Anonymous Anônimo said...

Ficou bom.

Lembra Dorian Gray

e sua foto.

4:47 PM  
Anonymous Anônimo said...

Eaiii como está? faz temp oqeu não venho aqui ein, até já relacionei teu blog no meu lá. pdoe ver =D
poh legal o texto ein, adoro essas histórias e a criatividade das pessoas quando elas escrevem e nos encantam com essas histórias!
Parabéns tá muito legal.

bjos

12:14 PM  

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