A revolta das vaquinhas.
Da janela do meu quarto podia ver o pasto. O sol tocando a terra fresca, o mato ainda úmido pela chuva da matina.
Bois, vacas e bezerros pastavam sem nada esperar. Comiam, ruminavam incessantemente durante horas para depois fertilizarem a terra novamente com sua matéria orgânica e inorgânica.
De longe, podia ver um homem com um cachorro ao lado. Tinha chegado a hora de ordenhar o gado e levar até o curral de espera. O cachorro vinha impondo medo, rosnando e latindo, organizando os bichinhos que atendiam sem contestar.
Logo, escolheriam a mais gorda para abater. Eu sentia pena. Simplesmente pena. Eles não tinham a voz para dizer que aquilo era injusto, para dizer que não queriam. Muitos tinham seus bezerrinhos e não queriam deixa-los para trás, pois logo virariam bifes e peças.
Dia após dia eu via o processo e queria algo mudar. De madrugada, saí pé ante pé, sem barulho fazer.
Entrei na baia e lá estavam eles, descansando para o dia seguinte. O dia seguinte seria exatamente como o anterior. Comer, defecar, reproduzir, dormir ou serem abatidos.
- Vaca Maria, Vaca Maria – eu chamava. – Acorde, vaquinha.
- O que foi? Quem é você, humana? – perguntava a vaca irritada por ter sido acordada de madrugada.
- Sou filha do dono da fazenda, mas não concordo com nada disso. Você tem vontade de ser livre? De poder pastar onde quiser e não ter que servir sendo comida de gente?
- Ora, ora, minha menina. Como vou ser livre, se dependo desse pasto para comer e criar os meus filhos?
- Mas existem muitos pastos por aí! Muitos pastos bonitos e agradáveis para a senhora poder criar o seu rebanho.
A vaca Maria pensou por instantes. Ela começava a ficar eufórica com a idéia.
- Então o que podemos fazer? – perguntava com os olhinhos vibrando de emoção.
- Nunca reparou que vocês são muitas? É somente um cachorro para inúmeras vacas e bois! Vocês estão todos os dias fazendo a mesma coisa e nunca pensaram em revolução? Parecem que estão hipnotizadas e aceitam essas condições há anos!
- É verdade. Eu confesso que não sou muito feliz em saber que a qualquer momento posso virar comida de gente, mas me conformei com essa idéia. Não sabia como fazer algo para mudar essa história, afinal, todos os meus antepassados passaram pela mesma coisa. São anos de exploração e matança.
- Mas eu te digo que tem como mudar o destino de seus filhos!
Amanheceu, e da janela eu estava ansiosa observando os passos das vacas e dos bois. De longe pude ver o meu pai se aproximando com o pastor alemão. O bicho vinha como se estivesse possuído, louco para que alguma delas dessem bobeira para poder fincar os dentinhos afiados numa daquelas perninhas carnudas.
O rebanho estava aflito, eu podia ver que não estavam confiando tanto assim neles mesmos. Eles se ordenhavam como de costume, no entanto, de um segundo para o outro, a vaca Maria parou e empacou. Lá foi o cachorro para atenta-la. Mordeu o quanto pode suas pernas, a vaca Maria parecia não ter reação. Não parecia sentir dor ou qualquer outra coisa. Ela não seguiu o meu plano, mas realizou o dela sendo isca para salvar todo o resto.
O rebanho entendeu exatamente o que acontecia, muitas aproveitaram a oportunidade e correram para longe guiando os bezerrinhos. No entanto, algumas tomaram coragem e deram uma corrida em meu pai e no cachorro.A vaca Maria deitou no pasto sozinha e mandou o resto ir embora. Da janela eu podia ver o seu olhar e um sorriso. Ela agradecia de coração e estava leve. Podia dormir em paz com a sensação de ter mudado o destino de inúmeros bezerrinhos.
Bois, vacas e bezerros pastavam sem nada esperar. Comiam, ruminavam incessantemente durante horas para depois fertilizarem a terra novamente com sua matéria orgânica e inorgânica.
De longe, podia ver um homem com um cachorro ao lado. Tinha chegado a hora de ordenhar o gado e levar até o curral de espera. O cachorro vinha impondo medo, rosnando e latindo, organizando os bichinhos que atendiam sem contestar.
Logo, escolheriam a mais gorda para abater. Eu sentia pena. Simplesmente pena. Eles não tinham a voz para dizer que aquilo era injusto, para dizer que não queriam. Muitos tinham seus bezerrinhos e não queriam deixa-los para trás, pois logo virariam bifes e peças.
Dia após dia eu via o processo e queria algo mudar. De madrugada, saí pé ante pé, sem barulho fazer.
Entrei na baia e lá estavam eles, descansando para o dia seguinte. O dia seguinte seria exatamente como o anterior. Comer, defecar, reproduzir, dormir ou serem abatidos.
- Vaca Maria, Vaca Maria – eu chamava. – Acorde, vaquinha.
- O que foi? Quem é você, humana? – perguntava a vaca irritada por ter sido acordada de madrugada.
- Sou filha do dono da fazenda, mas não concordo com nada disso. Você tem vontade de ser livre? De poder pastar onde quiser e não ter que servir sendo comida de gente?
- Ora, ora, minha menina. Como vou ser livre, se dependo desse pasto para comer e criar os meus filhos?
- Mas existem muitos pastos por aí! Muitos pastos bonitos e agradáveis para a senhora poder criar o seu rebanho.
A vaca Maria pensou por instantes. Ela começava a ficar eufórica com a idéia.
- Então o que podemos fazer? – perguntava com os olhinhos vibrando de emoção.
- Nunca reparou que vocês são muitas? É somente um cachorro para inúmeras vacas e bois! Vocês estão todos os dias fazendo a mesma coisa e nunca pensaram em revolução? Parecem que estão hipnotizadas e aceitam essas condições há anos!
- É verdade. Eu confesso que não sou muito feliz em saber que a qualquer momento posso virar comida de gente, mas me conformei com essa idéia. Não sabia como fazer algo para mudar essa história, afinal, todos os meus antepassados passaram pela mesma coisa. São anos de exploração e matança.
- Mas eu te digo que tem como mudar o destino de seus filhos!
Amanheceu, e da janela eu estava ansiosa observando os passos das vacas e dos bois. De longe pude ver o meu pai se aproximando com o pastor alemão. O bicho vinha como se estivesse possuído, louco para que alguma delas dessem bobeira para poder fincar os dentinhos afiados numa daquelas perninhas carnudas.
O rebanho estava aflito, eu podia ver que não estavam confiando tanto assim neles mesmos. Eles se ordenhavam como de costume, no entanto, de um segundo para o outro, a vaca Maria parou e empacou. Lá foi o cachorro para atenta-la. Mordeu o quanto pode suas pernas, a vaca Maria parecia não ter reação. Não parecia sentir dor ou qualquer outra coisa. Ela não seguiu o meu plano, mas realizou o dela sendo isca para salvar todo o resto.
O rebanho entendeu exatamente o que acontecia, muitas aproveitaram a oportunidade e correram para longe guiando os bezerrinhos. No entanto, algumas tomaram coragem e deram uma corrida em meu pai e no cachorro.A vaca Maria deitou no pasto sozinha e mandou o resto ir embora. Da janela eu podia ver o seu olhar e um sorriso. Ela agradecia de coração e estava leve. Podia dormir em paz com a sensação de ter mudado o destino de inúmeros bezerrinhos.
1 Comments:
Vacas não fazem parte de meu cardápio mesmo. ^^
Momento Orwell!
Postar um comentário
<< Home