Preparei um jantar espetacular para o Mário. Arrumei a mesa, coloquei a melhor toalha. A casa estava bem arrumada, o vinho comprado, as flores vermelhas nos vasos. Todos os detalhes tinham sido pensados com cuidado por mim e por ela. Era preciso não deixar falhas.
Vinte para as dez. Fui para o banheiro, tirei a roupa e coloquei no cesto. Natasha ficou na porta me observando enquanto entrei para o banho e comecei a me ensaboar.
- Está feliz por hoje? – perguntou ela.
- Ah sim, muito... Espero que dê tudo certo para você.
- Já está dando, meu bem... Agora é só relaxar – ela entrou, tirou a calcinha e se sentou ao vaso.
- Você conferiu todos os itens daquela lista que fiz? – perguntei, ainda meio insegura.
- Não, e não é necessário. Eu tenho tudo de cabeça, qualquer coisa, se você esquecer de algo, eu digo em seu ouvido, aposto que ele não irá perceber – disse ela me olhando de relance – A propósito, está bem esbelta e bonita... O que tem feito? Será que estou como você?
- Provavelmente – disse rindo.
Natasha era a minha companheira imaginária. Andamos juntas há mais de dez anos. Ela apareceu pela primeira vez para mim, na noite em que perdi a minha virgindade. Estava triste quando ela me disse que eu ainda iria ter muitas noites de amor em minha vida, que não era pra me decepcionar tão cedo.
Me chamo Clarice, tenho vinte e sete anos, solteira e bem sucedida profissionalmente. Lidar com Natasha foi um pouco complicado no começo... Afinal, ninguém a via além de mim. Porém, com o passar do tempo, aprendi a me comportar com ela em público.
Não me sinto tão sozinha, porque minha amiga não me abandona um só segundo. Dormimos lado a lado e acordamos também. Ela me disse que não tem vontade de viver uma vida própria, que já se sente muito feliz ao me assistir a viver.
Natasha é idêntica a mim fisicamente. O mesmo tamanho de busto e quadril, cabelos negros levemente cacheados e um sorriso encantador, mas temos personalidades opostas. Ela é atrevida, sensual e louca por qualquer vestígio de testosterona. Eu sou bem mais recatada, uso roupas de tons bege e não tento forçar nenhuma sensualidade.
Talvez por isso, eu tenha sido um fracasso em todas as minhas relações. Se eu pelo menos tivesse um terço de Natasha, aquela malícia... Talvez as coisas seguissem um outro rumo.
Estava tudo certo, só faltava o indivíduo chegar. Enquanto isso, bebi um pouco com ela enquanto ouvíamos uma velha bossa.
- Preparou a droga? – perguntei.
- Sim, está ali perto da garrafa de vinho – disse ela.
A campainha tocou, Natasha ficou aparentemente ansiosa e se moveu para um canto escuro da sala, eu fui recebe-lo.
- Nossa, como você está linda! – dizia ele.
- Gentileza sua...
O jantar estava divino. Ele se deleitou, bebeu quase a garrafa inteira, e em uma das taças, já estava o “boa noite Cinderela”.
- Que vinho espetacular, Clarice! Vou comprar um desse para mim... – dizia ele ainda sem se abater com o efeito da substância.
- É maravilhoso mesmo, indicação de uma amiga...
Mário se aproximou de mim inesperadamente. Olhou dentro de meus olhos e me pegou pela nuca. Deu-me beijo na boca, daqueles bem grudados e começou a beijar o meu pescoço. Eu não estava bem, me sentia mal por Natasha estar ali assistindo, porém eu também queria ter até o controle da situação de leva-lo para cama, não queria ser levada, como sempre fui.
Logo ele praticamente desmaiou. O boa noite Cinderela tinha feito efeito. Comecei a sentir um pouco de remorso antes mesmo do fato se suceder.
Arrastamos ele até a minha suíte, o colocamos em minha cama e pegamos a corda. Amarramos os pulsos e os pés, e tapamos a boca também, para que os vizinhos não ouvissem caso ele tivesse alguma reação.
Natasha estava eufórica. Usava um vestido vermelho decotado, digno de deixar qualquer homem à flor da pele.
- Ele é todo seu, Natasha – disse saindo de perto.
Aquilo tudo começou a parecer um tanto quanto sórdido e esquisito para mim. Convidei o cara por quem estava apaixonada para jantar comigo, o seduzi sem muitos artefatos, e o dopei para minha companheira imaginária poder ter uma noite de prazer.
Me sentei na cadeira de canto e de protagonista de minha vida, passei a telespectadora. Natasha tirou o vestido lentamente, começou a desabotoar a blusa de Mário. Percebi que ela já estava sem calcinha.
Senti um forte aperto no peito, uma raiva incontrolável. Pulei em cima de Natasha, enchendo-a de tapas na cara.
- Está louca, mulher? – perguntava ela surpresa. – O que deu em você?
- Eu não quero ver isso, sua maníaca! Isso é pura humilhação!
- Como assim?! Não quer assistir? Vai procurar alguma coisa para fazer então, sua fraca.
- Fraca? – fui para cima dela puxando seu cabelo. - Fraca é você, que precisa da minha ajuda para conseguir alguém para ter prazer! É tão esperta, linda e sedutora, mas não tem a capacidade de seduzir alguém de verdade, já que ninguém consegue te ver além de mim!
A vadia caiu em lágrimas. Sem muito pensar, a puxei pelos braços como uma devassa e a levei para o banheiro, lá a tranquei. No quarto desamarrei Mário, e com a mesma corda, amarrei Natasha por completa.
Senti um alívio instantâneo e uma sensação de alegria inexplicável! Tive a sensação de que a partir daquele momento, poderia viver minha vida em paz sem palpites diários de uma cópia pervertida de mim.
Vesti Mário cuidadosamente e o cobri com uma colcha, peguei a camisola mais sexy que eu tinha dentro do armário e me deitei ao seu lado. Fiquei observando os traços de sua boca, o contorno de seus olhos. Senti uma profunda afeição por ele, acompanhado por um pouco de culpa. Logo acabei dormindo.
- Clarice? – alguém me chamava incessantemente. – Acorde... Por favor.
Mário estava há um palmo de distância de meu rosto me acordando de um jeito tão lindo, que tive preguiça até de abrir os olhos, queria ficar ouvindo aquela voz tentando me acordar.
- O que houve, Mário? – perguntei me sentando na cama.
- Eu que te pergunto... Minha cabeça está doendo tanto. O que aconteceu ontem à noite?
Pensei rapidamente em uma desculpa.
- Bom, bebemos muito daquele vinho... Você acabou dormindo lá na sala, acho que seu organismo estava meio fraco para álcool ontem.
- É, isso as vezes acontece mesmo... Espero não ter te dado trabalho.
- Não, que isso... – disse sorrindo. – Foi um prazer cuidar de você.
Alguma coisa estava mudada dentro de mim. Me sentia mais segura e naturalmente sensual por estar com uma camisolinha fina e com o rosto de quem acabou de acordar – eu adoro o meu rosto quando eu acordo.
Nos olhamos por um instante de alguma forma diferente. Eu fui sem medo para cima dele. A camisola aos poucos se diluiu entre os dedos, mãos e desejos. Não sei explicar o que deu em mim, me sentia simplesmente linda, leve e solta entre os movimentos de encontro e reencontro dos corpos.
- Clarice, aonde aprendeu isso? – ele estava perplexo.
- Essa é só uma das de mim... – disse brincando com ele.
- Nossa, assim eu já fico curioso para saber quem são as outras.
Me levantei com uma paz de espírito tomando conta de todo o meu ser. Abri a porta do banheiro para tomar uma ducha e percebi que Natasha não estava mais por ali. Não havia nenhum rastro de que ela havia existido. Não me surpreendi, eu sabia que já era hora.