sexta-feira, dezembro 22, 2006

Augusto, Marieta e eu.

Conheci Marieta na missa de sétimo dia de meu pai. Eu tinha vinte e dois anos, ela usava um vestidinho preto arrochado que deixava os desenhos das coxas bem visíveis. Ela era sobrinha do marido de minha tia.
Marieta estava sentada na fileira da minha frente. Pude ver quando uma lágrima rolou pela sua face. Não entendi muito bem porque chorava, já que ela não tinha muito contato com minha família. Eu podia sentir o cheiro de sua colônia, mesmo estando um pouco distante. Suas costas e nuca tinham a pele macia, os cachos caiam pelos ombros em harmonia.
Na saída da igreja, a moça de no máximo dezenove anos puxou conversa comigo. Nos apaixonamos perdidamente naquela mesma noite, e nos casamos cinco meses depois no civil.

Dia 15 de março de 1968, Marieta estava na cozinha preparando os petiscos para a jogatina. Nosso casamento era invejado por todos os meus cinco amigos. Eu tinha uma mulher perfeita, quente quase em todas as noites, nada exibida e completamente apaixonada por mim. Discutimos poucas vezes, nos entendíamos muito bem. Ela não hesitava quanto o assunto era me agradar.
Uma vez por semana, eu e meus amigos do escritório nos reunimos aqui em casa para o jogo, longas conversas e muito whiski. Marieta sempre no fim da noite, cantarolava alguma canção sentada com suas pernas cruzadas sob a mesa. Tentávamos não nos envolver nos assuntos políticos e vivíamos entre o trabalho, as mulheres e a boemia.
- Marieta, mais uma garrafa e três copos - pedia Augusto enquanto a mulher corria para a cozinha.
- Vocês estão ficando muito mal acostumados – dizia ela trazendo o que foi pedido e se sentando em meu colo. - Sabe, é um prazer tê-los aqui em nossa casa. Já que não conseguimos ter a casa cheia dos filhos, é uma honra tê-la cheia de amigos como vocês.
- Ora, Marieta... Quem me dera se Carmen fosse tranqüila e divertida assim como você. Aquela mulher só sabe reclamar das minhas companhias – disse Augusto.
- Talvez correta fosse ela. Por ter esse tipo de postura, sou muito mal vista por muitas delas.
- Não mude, meu anjo – eu dizia à ela. – Quem é seu marido sou eu, e sou muito feliz por ter alguém como você ao meu lado.
A noite se foi como uma paixão juvenil. Os homens foram embora e eu carreguei Marieta para o quarto.

Na manhã seguinte, acordei e não a encontrei ao meu lado. Pensei que ela tivesse ido a feira. Preparei um café e fui ler o jornal. Percebi que no canto direito inferior da primeira página tinha um telefone, o nome de um hotel no centro da cidade com um horário. Ela tinha preparado uma surpresa para mim e faltava apenas quarenta minutos para o horário que ali estava escrito.
Arrumei-me rapidamente e fui encontra-la. Enquanto cruzava ruas e avenidas dentro de um táxi, fui tentando prever como ela estaria vestida, se estaria com alguma fantasia ou até mesmo sem nada, me esperando em cima da cama ainda fria.
Cheguei no hotel e disse o número do quarto e o nome de Marieta. O recepcionista me mandou subir. Entrei completamente afobado e me deparei com minha esposa completamente nua com uma venda em seus olhos. Nada disse. Apenas a peguei pelo braço com brutalidade, a joguei em cima da cama e fizemos tudo de um jeito que não fazíamos há muito. Não trocamos nenhuma palavra. Ela somente ria e se contorcia. Vesti-me como se nada tivesse ocorrido e saí daquele hotel me sentindo um outro homem. Eu tinha transado com a minha mulher, mas ao mesmo tempo, parecia que Marieta estava possuída, parecia que era outra pessoa.

Já no escritório, senti a falta do meu companheiro Augusto, qual nunca faltava. Recebi em seguida um telefonema. Augusto estava morto. O meu amigo de infância estava morto! Sua mulher, Carmem, descobriu que ele tinha uma amante e o envenenou durante o café da manhã, tomando a mesma dose de veneno em seguida. Uma verdadeira tragédia.
Larguei todos os afazeres do escritório, busquei Marieta e fomos todos preparar o enterro. Compramos melhores caixões e os arranjos mais caros de flores. Foi um dos momentos mais tristes de minha vida. Marieta estava estática. Parecia em estado de choque. Nenhuma lágrima rolava pelo seu rosto, me veio na cabeça a mesma cena da missa de sétimo dia de meu pai. Estranhava exatamente, por nessa ocasião ela conhecer bem o defunto e não soltar nem mesmo um suspiro.
Encerrada toda a cerimônia fúnebre, fui para a casa com a minha mulher. Eu nunca soube que Augusto mantinha casos extras conjugais. Nunca havíamos conversado sobre isso.
Marieta colocou sua camisola e foi dormir. Não me fez aquelas carícias rotineiras. Simplesmente virou-se para o lado e apagou. E eu, fiquei como um zumbi pela casa, lembrando de todos os momentos que tive com os meus amigos naquela sala, por todos os porres e festas particulares quando Marieta estava fora na casa dos pais.
Era triste, realmente muito triste. Estava completamente bêbado, jogado no sofá com um copo de whiski já aguado pelo gelo derretido quando notei uma agenda caída no chão da sala. Era a agendinha de compromissos de Marieta. Sabia que não era certo abrir, sempre respeitamos muito a privacidade um do outro, mas sem hesitar, abri e me deparei com algo muito curioso.

“Segunda feira – 15:30 – Luiz na minha cama.
Terça feira – 15:30 – Marcos no Hotel San Pierre.
Quarta – feira – 7:30 – Augusto no Hotel Plaza
Quinta – feira - 15:30 – Eduardo na minha cama novamente.
Sexta – feira – 16:30 – Pedro Antônio na cama dele”.


Eram todos os meus melhores amigos. Amigos do escritório. Amigos de jogatina. Amigo de whiski. Amigos de orgias. Puta merda. A filha da puta me traía semanalmente com todos eles. E o Augusto... Justamente hoje era para a filha da puta da Marieta dormir com o Augusto! Só que... Eu fui até lá, enquanto ele estava sendo envenenado pela esposa. Então... Marieta deveria estar completamente sem imaginar com quem transou!
Fui até o quarto devagar, sem fazer muito barulho e peguei uma mala. Coloquei cuidadosamente as roupas mais vulgares de Marieta e todas suas lingeries.
- Marieta, acorde! – a sacudi sem nenhum cuidado.
- O que houve meu amorzinho? – perguntava ela sem nada entender.
- Amorzinho? Vou te levar para um lugar onde você irá se identificar muito. Acho bom você ficar quieta, se não eu a mato.
Eu tinha uma arma escondida em cima do armário. Coloquei dentro das calças. Saí com Marieta de um lado e a mala do outro. A joguei dentro do porta malas sem explicações. Levei-a até a porta de um prostíbulo. Abri o porta malas, a peguei pelos cabelos.
- Quem sabe aqui você não possa atender melhor os seus clientes? – joguei a mala e a agenda e dei ombros.
Marieta estava em prantos. Chorava e perdia perdão incessantemente, segurando em minhas pernas. Era uma figura deplorável. Não senti nenhuma pena.
Fui dirigindo até a ponte mais próxima e olhando o caminho das águas, só um pensamento martelava em minha cabeça. Por causa daquela vadia, o meu amor de infância, o amor que eu nunca tinha tocado ou sentido com intenção, tinha sido assassinado. Vadia. Vadia.
Sendo assim, não tinha outra alternativa a não ser me jogar.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Ficou legal, mas não sei, parece que faltou alguma coisa para ficar tão bom quanto deveria, talvez o ritmo.
Mas é só uma opinião.

=P

4:47 PM  
Anonymous Anônimo said...

maneiro!
tragico!
=)
bjos!

2:37 PM  
Blogger João Ventura said...

Que família hein. Acho que o fim ficou meio previsível. Mas está bom mesmo assim. Tipo, bem Nelson Rodrigues. Tem muita Marieta, Augusto e o manso por aí... Também gostei do conto se ambientar em 68, refletiu bem à época, quando todos esses casos eram reprimidos. Você continua escrevendo muito bem. Seus contos vão longe.

Beijão

1:12 PM  

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