segunda-feira, junho 04, 2007

Desaparecimento de uma mulher.

A mulher acordou tarde com uma leve dor de cabeça sob os olhos. Espreguiçou-se, colocou os pés no chão frio. Caminhou até o banheiro lentamente, pasta na escova e automaticamente se olhou no espelho enquanto escovava os dentes.
Aquela mesma sensação retornou sem que ela tivesse o controle. Se olhava no espelho e não conseguia saber direito quem estava ali. Quem era ela? Porque estava ali? Se questionava porque vinha ao mundo daquela forma e qual era sua função.
Bochechou, cuspiu a água na pia, lavou o rosto com a intenção de lavar a alma, mas era difícil. Não via saída para os problemas do trabalho, acabara de sair de um relacionamento desgastante, não tinha ânimo de sair com os amigos pra dar uma volta no quarteirão.
Sobrevivia. Do trabalho para casa. Em casa dormia, comia, dormia novamente, fumava um cigarro, via um pouco de tv passivamente, sem soltar um sorriso, uma lágrima, uma gargalhada.
Em seu quarto, já não ligava mais para a bagunça. Fazia o mínimo das tarefas de casa para se sentir menos culpada.
Voltou ao quarto, abriu o guarda roupa. A vaidade já não mais a pertencia. Nua diante do espelho olhava todas as suas curvas. Tinha um misto de raiva e nojo de si mesma. Se criticava em cada detalhe interiormente. Pegou uma meia calça e começou a vestir, notou que alguns dedos de seus pés tinham desaparecido. A primeira impressão foi um misto de medo e curiosidade, não tinha a mínima idéia porque aquilo havia acontecido. Mas conseguia ficar de pé, calçar os sapatos, andar normalmente. Em menos de dez minutos já havia se acostumado sem os dedos. Foi para o trabalho, produziu até onde achou que poderia.
Na volta, olhava as cores das calçadas enquanto dentro de sua cabeça só vinha seus atos falhos, o que fez de errado com seu amor. Andando pelas ruas notou que tudo estava num silêncio fora de normal. As pessoas falavam e das bocas nada saíam. Não ouvia o ronco dos motores, os barulhos normais de qualquer cidade. Levou a mão aos ouvidos e não sentiu suas orelhas.
Foi para casa correndo para se olhar ao espelho, e realmente era o que suspeitava. Suas orelhas também tinham desaparecido. Não poderia mais ouvir a televisão, o despertador tocar. Estaria
com alguma doença degenerativa?
Buscou na internet e todos os sites de busca que poderia. Enciclopédias, dicionários. Nada. Nenhuma pista. O mais curioso era que não sentia dor, não havia secreção. Simplesmente não sentia mais suas orelhas porque elas não existiam, e também não era mais capaz de ouvir qualquer ruído.
No entanto, pensou pelo lado positivo. Não iria mais ouvir a vizinha brigando com o marido, o cachorro pirando do outro lado da rua atrás da cadela.
Deitou no sofá e ficou observando o teto branco. Já tinha se esquecido de suas partes desaparecidas e novamente voltou a cuidar de seu manicômio mental. Imagens e cenas soltas, desde a infância à vida adulta. Não via saída para simples sentimentos. Estava presa à toda e qualquer situação que a tinha feito chorar, sofrer. Estava sem seu eixo, equilíbrio. Não havia mais ânimo para qualquer livro de auto ajuda. Já se esquecia aos poucos de quem era, esquecia suas habilidades, seus gostos, suas vontades e planos.
Adormeceu sem perceber.
Abriu os olhos assustada, tentou se mover e sentia que algo de muito ruim tinha acontecido. Levantou um pouco a cabeça, sem jeito e algum controle. Viu que seus membros inferiores já não estavam mais ali. Suas pernas e braços sumiram. Tentou abrir a boca para gritar, chamar ajuda, não a sentia também. Se debateu o quanto pôde no sofá para tentar fazer algum tipo de barulho. Esforço em vão. Chorou com toda a força que ainda pertencia aquele corpo. Só restava à ela olhar um teto branco, uma imagem vazia, sem textura, sabor, cheiro ou qualquer rastro de sensibilidade.
Os dias foram passando. Ela continou ali. Só podia olhar o teto. Aos poucos nem mesmo os pensamentos auto destrutivos continuaram. Sua mente que antes era uma caixa de entulhos, com pensamentos empueirados e fora de ordem, havia se tornado completamente vazia. Somente respirava e mantinha os olhos abertos em um único ponto.
Assim foi até não restar quase nada da mulher, até ela mesma não mais notar o que desaparecia, até desaparecer por completo.

6 Comments:

Anonymous Anônimo said...

A mulher se auto-destruiu.
Se para ela não existia mais vida, a vida passou a não mais existir nela.
A morte começou na mente, nos atos.
Ela não tinha mais função, não se sentia útil.
Até que tudo parou de funcionar.

Deprimente.
E existem pessoas assim, que resolvem sumir da vida sem nem perceberem, mas que também não sentem falta de viver.


Nina, sua criatividade vai além!
Te amo muito!
Beijão!
;**

2:23 PM  
Blogger Unknown said...

oh mt coincidência na hora q li tava ouvindo uma música chamada "Lindonéia", q fala q ela se olhou no espelho e sumiu tbm, aih o refrão é: "Lindonéia desaparecida" e tal...hehe
é tem q cuidar de si pra nao desaparecer...
escreva com mais frequencia, então me visite sim!
BEIJÃO!

12:59 AM  
Anonymous Anônimo said...

Gostei - um desaparecimento diferente do que eu imaginara,porém mais inusitado e interessante.


Até.:

2:00 PM  
Blogger marano said...

eu achei aqui!!!
achei! achei!

só que eu tô saindo do trabalho agora...

mas eu vou ler tudinho!

abraços!

5:26 PM  
Blogger marano said...

Quão mórbidos esses últimos posts!

7:20 PM  
Blogger João Ventura said...

Muito bom o texto Nina. Realmente, há pessoas que desaparecem com uma passividade mórbida e nem se dão conta disso. A maneira como descreveu também ficou muito boa.

Esse texto me lembrou muito uma história em quadrinhos que saiu publicada na revista piauí. O link para a história é este: http://www.revistapiaui.com.br/2007/fev/quadrinho.htm

Dá uma olhada, tá bem aprecido.

Beijão

5:03 PM  

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