quarta-feira, novembro 29, 2006

Almas - quase - gêmeas.

Entrei na loja e me dirigi para os nacionais. Comecei a procurar Cordel de Fogo Encantado, olhei em todos os cantos possíveis e nada... Achei melhor perguntar.
- Precisa de ajuda? – perguntou o vendedor.
Deixar de analisar alguém em pelo menos cinco segundos é praticamente impossível. Mulher, a primeira vista, dá uma leve verificada em qualquer situação. Ele usava All Star.
É, pode parecer tosco para você que lê nesse instante, mas confesso que tenho uma grande queda por rapazes de All Star.
- Tô procurando o cd do Cordel de Fogo Encantado... – disse meio sem graça, com receio de ele ter percebido que eu o observei.
- Curte o som? – perguntou ele enquanto pegava na prateleira e me entregava -. Gosto bastante também... Conhece Mombojó?
- Claro! Me amarro muito!
Meu coração pulsava forte. O carinha gostava das mesmas bandas que eu! Ele usava um jeans meio surrado, um cabelo meio bagunçado e uma blusa fora de linha. Perfeito.
- E internacionais? O que você escuta? – ele estava fazendo muitas perguntas, muito suspeito.
- Ah... São tantos! Sou apaixonada por Strokes, Radiohead, Franz, Ramones...
- Pelo seu estilinho, aposto que curte um bom Los Hermanos!
Risos. Passei a mão no cabelo, dei um sorriso. Ele com certeza não estava interessado no meu gosto musical. Era apenas uma brecha, para uma infinidade de outros assuntos. Então era só fazer um doce.
- Ah... Desculpe por ser tão intrometido assim, é que eu só queria puxar assunto com você, pois...
- Relaxa! Eu sei como é isso... – disse meio que o interrompendo.
- Talvez você não tenha entendido. Eu só queria mesmo saber onde você comprou essa blusa super estilosa! Será que tem do meu tamanho?!
Merda. Uma blusa pink com uma guitarra estampada. Meu radar errou feio. Tudo bem. Continuo com a minha tese de que muitos dos usuários do All Star são bom partido. Um dia eu acerto.

terça-feira, novembro 28, 2006







Pagudiando.

Estava ouvindo uma música de Rita Lee e Zélia Duncan, cantada por Maria Rita, quando percebi que não conhecia o significado daquela faixa do cd. ‘Pagu’. Tinha uma vaga idéia de que era o nome de uma mulher... Mas não tinha a mínima noção do peso que poderia ter.
Lá fui eu atrás de ‘Pagu’. Como eu nunca tinha ouvido falar dessa mulher?! Mulher que quebrou padrões da época, a primeira presa por questões políticas! Estudou antropofagia, acrescentou à arte, marcou a história e mais uma vez, quebrou as amarras da submissão.
Engraçado que isso me fez lembrar quando quebrei uma de minhas amarras. Eu queria cortar o meu formoso cabelo, meu namorado da época não fazia gosto. Cortei sem medo de perde-lo afinal, o ideal era que ele gostasse de mim com cabelo ou não.
No final das costas, perdi o namorado, porém não foi por questões capilares.
Podemos encontrar inúmeras ‘Pagus’ pela vida. Muitas ‘Anitas’, ‘Tarsilas’, ‘Olgas’... E até Marias! Mulheres que acordam todos os dias e encontram formas mágicas de alimentar dez filhos. Existem aquelas também, como a minha mãe, que sem a presença constante da figura masculina, dão a melhor educação.
Encontramos ‘Pagus’ médicas, professoras, engenheiras. Psicólogas, costureiras, enfermeiras.
A geração de minha avó, suportou os chifres em prol do nome e estrutura familiar. Na de minha mãe, quebrou-se algumas amarras do machismo, e a mulher saiu de casa para trabalhar e sustentar a família. Já na minha, algumas nem pensam mais em se casar.
Fico imaginando como não serão as minhas netas...
Salve, Salve moça Pagu e todas as outras do Brasil!

E se você tiver uma assim por perto, cuide dela como se fosse o seu mais delicado tesouro.
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Para ler mais sobre 'Pagu':
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Para escutar a música:
17o link => Pagu
Maria Rita - Rita Lee/Zélia Duncan - Maria Rita - Maria Rita - 03'52''

sábado, novembro 25, 2006

Momento Latino.



Estoy en una fase muy latina.
Personas latinas, músicas latinas, películas latinas...
El rítmo entra en mi cuerpo y me hace salir de la noción.
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Hoy me interé una cosa.
Descobri que encuanto las chichas quieren ser bailarín,
yo quero estrellar en una película de Almodóvar.
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Ayer assistí a una película com Salma Hayek
y... Penélope Cruz! (Bandidas)
La película no tiene nada demás, pero es una distracción chistosa - y ¡ mexicana!
Cuando crecer - o en otra encarnación - , voy ser como ellas.
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Domingo hare un examen específico de español... =~~
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Para terminar el post sobre mi momento latino,
un site muy interesante
http://www.clubcultura.com
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'Baila en la calle, de noche... Baila en la calle, de día'...
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P.S.: Ahhhhhhhhh... Estoy loca para ver "Volver"!
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Post 100% sincero.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Maldita calça vermelha de malha.

Saio do teatro exausta. Nem troco de roupa de tão grande que é a fome.
Fico, infelizmente com você, calça vermelha de malha! E parto para encher a pança.
Na lanchonete, um calor do cão. O sol estrondando lá fora, o suor fluindo solto pelo ar, crianças, periquito, papagaio, adulto, idoso, gringo. Meu estômago colado. Nem tô dando importância pra você, calça de ginástica irritante.
Olho para aquelas promoções. Aquela ali com duas carnes ia cair bem pra caramba com uma Coca bem gelada! Se bem que... Que isso, Nina?! Você queimou tanto, tá aqui com roupinha de academia... Peço um Chicken Grill com suco de laranja.
Espero dez minutos de pé. Espero mais quinze. Percebo que o vidro da cozinha é transparente. Olha ali o meu sanduíche! O queijo caiu... Espero que o cara não pegue o do chão! Isso... pega um direitinho... Isso... Derrete o queijinho. Ah, que tortura.
Peraí... O vidro reflete o lado de fora... Olha! Olha! O safado ali de trás tá olhando para a minha calça! Que merda... madilta calça, maldita.
Sanduíche, suco, e o lugar pra sentar? Sento eu ali, com quatro mulheres estranhas. Comer na frente de desconhecido é foda. Será que tô com a boca suja? Foda-se. Tô com fome, melhor acabar com isso tudo logo.
Percebo que o vidro de frente para mim também é transparente e me dá a visão de quem faz compras dentro do mercado. Olha, olha! O cara que estava olhando a minha calça vermelha! Ué... ele tá comprando só dois tomates e quatro batatas? É solteiro e mora sozinho! Não, não necessariamente... As vezes na receita da mulher dele, só faltam dois tomates e quatro batatas.
Barriga cheia, felicidade instantânea. Saio da lanchonete. Primeiro passo do lado de fora e escuto:
- Tá poderosa, hein - e o mané ainda continua cantando -. Poderosa, ê-ê-ê-ê-ê!
No quarteirão seguinte:
- Que saúde, hein.
Atravesso a rua, e para findar a festa:
- Coisa linda...
Maldita calça vermelha de malha. Definitivamente, não sei o que leva um sujeito, em pleno calor de verão, em pleno stress de centro da cidade, com todo o meu mau humor e cara feia a soltar esses tipos de elogio.
Vender roupas de ginátisca deve dar dinheiro.
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Sim, isso aconteceu comigo.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Na era da informação...

- Mãe, mãe, será que hoje você vai me responder? - perguntava o menino puxando a saia da mãe.
- O que foi Matheus? - olhava a dona Cecília para o filho. - É aquela pergunta de novo, não é?
- É sim, mãe... Queria saber se você já descobriu a verdade.
- Que verdade?
- A verdade que explica de onde eu vim, mãe...
- Menino! Eu já contei mais de mil vezes essa história pra você! Já expliquei que a sementinha do seu pai juntou com a minha... e aí...
- Ah, mãe, pelo amor de Deus! Você acredita mesmo nisso?
Dona Cecília não entendeu a reação do menino.
- Eu já sei como as coisas são. Como sou teu filho, eu vou te contar! Já que o canalha do papai não tem coragem...
- Matheus, como assim?
- Mãe, a parada é a seguinte... O piu piu do papai bem namorou com a sua pepeca, e aí o tal do ES-PER-MA-TO-ZÓI-DE bem fecundou o seu Ó-VU-LO. Daí eu vim parar nesse mundinho...
- Criatura de Deus! Quem te falou isso?
- Tá vendo... Você fala para eu parar de ver tanta televisão... Deveria ver os meus canais! Ninguém me contou não, é que eu assisto Discovery Channel.
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Inspirado no pequeno grande Nicholas.

terça-feira, novembro 21, 2006

Pseudogueixa

Oito e meia da noite... Tô cansada pra caramba... De pé desde oito horas da manhã! Minhas mãos já estão com cheiro desses condimentos doidos japoneses... Que merda, vou ficar cheirando à hondashi até chegar em casa! Se bem que até chegar em casa, nada demais vai acontecer mesmo... “O cara” não vai surgir assim do nada, ao virar a esquina. Esse povo não se cansa de comer não? De dez em dez minutos, no máximo é um tal de: - “Ô moça, prepara um Yakissoba pra mim”. Saco.
E esse kimono? Troço quente pra cacete! Em pleno calor do Rio de Janeiro, e eu aqui, de coque, com essa roupinha de pseudogueixa servindo os esfomeados cariocas. Tá certo, hoje não é um dos meus dias. Tem dias que acordo me sentindo uma princesa... Tudo fica colorido... Tenho um prazer em atender, em conversar, dou até umas risadas alegres dos assuntos que os clientes puxam, deixando-os confortáveis e com o ego amaciado. Mas hoje, sei lá, não sei se é TPM... Estou com os nervos, os sentidos e a imaginação à flor da pele!
O suor escorre pelas minhas costas... Preciso de um banho relaxante... Uma massagem nos pés... Uns beijos pela nuca e...
- Por favor, um yakissoba de carne.
Levanto os olhos, um rapaz de no máximo vinte e dois anos está na minha frente, olhando para o meu decote, fazendo o pedido. Bonitinho, usa um perfume gostoso. Ui, perfume de homem me dá um troço esquisito...
E começo eu. E preparo o molho: cebola refogada no azeite com a carne picadinha... Coloco o molho pra Yakissoba, mais o shoyu e deixo cozinhar por instantes...
- Vocês preparam algum tipo de filé? – perguntou alguém enquanto eu já preparava o pedido.
- Sim! – gritei meio sem paciência, estava quente.
- Nossa, quanta agressividade! – disse inusitadamente o jovem bonito do Yakissoba.
Largo o Yakissoba. Como assim “agressividade”?! Eu estava preparando o Yakissoba dele... Se eu fosse um pouquinho mais estourada, enchia a porra toda de pimenta do reino.
- Pois é, é o calor! – disse sorrindo abrindo o kimono e fechando em seguida.
O garoto ficou perplexo. Que engraçado! Ficou visível nos olhos dele em milésimos de segundos o que ele não pensou comigo! Também, né... Que maldade da minha parte. Uma mulher morena, seios fartos, usando langerie preta debaixo de um kimono, preparando ainda por cima um Yakissoba! Que provocação. Mas gente, como eu abri o kimono? Que fogo foi esse que veio do nada? Eu abri o kimono para um cliente! Se bem que... Se ele me desse mole, eu levava pra casa mesmo! E ainda ia ter compania para um banho quente, aquela massagem nos pés... Aqueles beijos na nuca...
- Quanto deu? – perguntou ele.
- Onze e cinqüenta.
- Obrigada – ele estava tímido.
- De nada... Seu troco. Bom apetite.
E volto eu para preparar as massas. Situação engraçada. Gostei. Ficou tímido, mocinho? Atenta a pseudogueixa pra você ver o que ela faz com você...
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Fatos baseados em uma história real, vivenciados por um grande amigo em um shopping da zona sul do Rio de Janeiro.

domingo, novembro 19, 2006

Alice e o palhaço.


A menina bonita, da saia rodada e cabelos soltos encaracolados usava uma sapatilha cor de rosa, combinando com a fita do cabelo. Estava sentada na primeira fileira. Parecia que nunca tinha ido ao circo... Seus olhos não tinham um foco certo. Se perdia entre os malabares e a bailarina, que encantava a criançada.
Logo mais, entrei eu, fazendo algumas palhaçadas... Não era todo dia que se conseguia tirar boas risadas da moçada. Ser palhaço não era fácil. De um instante para outro, transformar o humor. Ora bonzinho, ora violão... Ora muitas risadas e ter que cair de bumbum no chão!
E a menina, toda curiosa... ficava tentando enxergar atrás dessa roupa. Da maquiagem e do nariz vermelho. O que o brotinho queria ver? Já que eu era tão feio...
Mais um espetáculo terminou. As palmas assim como começaram inusitadamente, deixaram o silêncio que anunciou o final. Fui me trocar e ao entrar no camarim, a menina esperava por mim.
- Senhor palhaço... Sem querer ser palhaça, vim até aqui para dizer que gostei de suas palhaçadas. - Era a menina bonita, da saia rodada e fita no cabelo.
Eu fiquei com cara de taxo. O palhaço não esperava.
- Ora, ora... mocinha, pro Palhaço Zé, é um prazer recebê-la.
- Tem trabalho aí no circo? - perguntou ela serelepe.
- Como assim, menina?
- Sei cozinhar, passar, sei coser algumas coisinhas também. Não quero ficar aqui... Quero poder rir todos os dias e conhecer muitos lugares dando alegria para as pessoas! - ela abria os braços enquanto falava como se pudesse alcançar o mundo.
- A vida aqui não parece ser má...
- Mas aposto com você que a do circo é muito mais bonita! - ela retrucava.
- Nem a vida do palhaço é feita só de alegrias.
Ela pensou por instantes. Deveria ter se lembrado de sua família. Chegou perto de mim, me deu um beijo muito estalado na ponta do nariz. Do nariz? Parecia que queria descer para a boca. Que coisa mais louca... Uma menina de no máximo dezessete anos, e eu, um palhaço de trinta e poucos anos...
Nunca mais a vi. Voltei naquela cidade de interior depois de uns cinco anos, e não a encontrei também. Tentei procurá-la, perguntei em alguns lugares, fazia muito tempo que não a viam. Eu perdi a graça. Perdi um pouco do sentido de alegrar.
Outro dia, a bailarina torceu o pé em um espetáculo lá na capital, e uma boneca foi a substituir. Boneca toda articulada, como aquelas que surgem de pequenas mal
as... Boneca de sapatilha vermelha e fita no cabelo. O pé parava na cabeça, os braços mais pareciam molas! A boneca encontrou o seu caminho e a sua felicidade da forma mais simples.
Era a menina... A minha menina que já era mulher. Se tornou boneca por sonho e encontrou o seu palhaço, sem querer.

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Inspirado em dois espíritos de luz que conheci no Sana - RJ. Meu eterno palhaço e minha boneca serelepe!