terça-feira, novembro 21, 2006

Pseudogueixa

Oito e meia da noite... Tô cansada pra caramba... De pé desde oito horas da manhã! Minhas mãos já estão com cheiro desses condimentos doidos japoneses... Que merda, vou ficar cheirando à hondashi até chegar em casa! Se bem que até chegar em casa, nada demais vai acontecer mesmo... “O cara” não vai surgir assim do nada, ao virar a esquina. Esse povo não se cansa de comer não? De dez em dez minutos, no máximo é um tal de: - “Ô moça, prepara um Yakissoba pra mim”. Saco.
E esse kimono? Troço quente pra cacete! Em pleno calor do Rio de Janeiro, e eu aqui, de coque, com essa roupinha de pseudogueixa servindo os esfomeados cariocas. Tá certo, hoje não é um dos meus dias. Tem dias que acordo me sentindo uma princesa... Tudo fica colorido... Tenho um prazer em atender, em conversar, dou até umas risadas alegres dos assuntos que os clientes puxam, deixando-os confortáveis e com o ego amaciado. Mas hoje, sei lá, não sei se é TPM... Estou com os nervos, os sentidos e a imaginação à flor da pele!
O suor escorre pelas minhas costas... Preciso de um banho relaxante... Uma massagem nos pés... Uns beijos pela nuca e...
- Por favor, um yakissoba de carne.
Levanto os olhos, um rapaz de no máximo vinte e dois anos está na minha frente, olhando para o meu decote, fazendo o pedido. Bonitinho, usa um perfume gostoso. Ui, perfume de homem me dá um troço esquisito...
E começo eu. E preparo o molho: cebola refogada no azeite com a carne picadinha... Coloco o molho pra Yakissoba, mais o shoyu e deixo cozinhar por instantes...
- Vocês preparam algum tipo de filé? – perguntou alguém enquanto eu já preparava o pedido.
- Sim! – gritei meio sem paciência, estava quente.
- Nossa, quanta agressividade! – disse inusitadamente o jovem bonito do Yakissoba.
Largo o Yakissoba. Como assim “agressividade”?! Eu estava preparando o Yakissoba dele... Se eu fosse um pouquinho mais estourada, enchia a porra toda de pimenta do reino.
- Pois é, é o calor! – disse sorrindo abrindo o kimono e fechando em seguida.
O garoto ficou perplexo. Que engraçado! Ficou visível nos olhos dele em milésimos de segundos o que ele não pensou comigo! Também, né... Que maldade da minha parte. Uma mulher morena, seios fartos, usando langerie preta debaixo de um kimono, preparando ainda por cima um Yakissoba! Que provocação. Mas gente, como eu abri o kimono? Que fogo foi esse que veio do nada? Eu abri o kimono para um cliente! Se bem que... Se ele me desse mole, eu levava pra casa mesmo! E ainda ia ter compania para um banho quente, aquela massagem nos pés... Aqueles beijos na nuca...
- Quanto deu? – perguntou ele.
- Onze e cinqüenta.
- Obrigada – ele estava tímido.
- De nada... Seu troco. Bom apetite.
E volto eu para preparar as massas. Situação engraçada. Gostei. Ficou tímido, mocinho? Atenta a pseudogueixa pra você ver o que ela faz com você...
-
Fatos baseados em uma história real, vivenciados por um grande amigo em um shopping da zona sul do Rio de Janeiro.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Hipon na certa! =P

Acho que vou passar a gostar de yakisoba

12:05 AM  
Anonymous Anônimo said...

Eu me amarro em Yakisoba.

Por falar nisso. Nina, você podia fazer pra mim.

Beijo.

4:41 PM  
Anonymous Anônimo said...

Olá!
Acabei vindo parar aqui meio que sem querer querendo... Li laguns dos teus textos e ainda vou ler outros, mas não pude sair do teu blog sem antes vir elogiar a tua qualidade textual! Escreves muito bem! Parabéns!

Henrique

12:10 AM  

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