quarta-feira, junho 27, 2007

Sobre essa tal de fórmula do amor.

Foto: Nina Maria.

Estava aqui a pensar sobre o porquê de algumas situações tão comuns na vida das pessoas da contemporaneidade.
Falo sobre os “relacionamentos foguetes”, os *“relacionamentos de bolso”, o porquê de tantas relações com tudo para darem certo, terminarem quando na verdade, ambos sempre buscaram algo intenso e duradouro.
A fórmula do amor como receita farmacêutica, se um dia
encontrada, com certeza será tão cara quanto a cura da Aids ou Câncer, acredito eu.
Acredito que seja algo que venha atormentando a mente das mulheres desta e outras gerações, qual estão cansadas de a cada dia escutarem o anúncio de um novo rompimento. Algumas ficam desiludidas, outras, mesmo com tantas decepções, tentam se renovar e apostam tudo novamente.
“Junho” que o diga... Justamente o mês dos enamorados, a cada semana chegava em meus ouvidos a Notícia. Foi um, dois, mais de cinco rompimentos em menos de um mês.
Curioso é o fato de que no passado, os casamentos eram muito mais duradouros devido ao fator de que o divórcio não era uma opção. Não há como negar que muitas dessas pessoas que ficaram juntas até o fim de suas vidas, passaram um bom tempo sendo infelizes dividindo uma mesma cama.
Hoje, é raro encontrar um casal de quarentões que sejam realmente felizes, que tenham encontrado a sua maneira de fazerem dar certo, mesmo não sendo nada fácil e muito menos parecidos.
Existe algo chamado “subjetividade”. Esse termo, muito estranho ou desconhecido para alguns, deveria ser algo bem mais trabalho por aí. Esse termo fala muito mais de nós, do que imaginamos ou saibamos... Subjetividade significa todo o seu universo, todo o seu ser. A sua forma de pensar, de agir, de sentir, o que lhe é subjetivo, é a sua forma de ver o mundo e existir.
“**Subjetividade é entendida como o espaço de encontro do indivíduo com o mundo social, resultando tanto em marcas singulares na formação do indivíduo quanto na construção de crenças e valores compartilhados na dimensão cultural que vão constituir a experiência histórica e coletiva dos grupos e populações”.
Sendo assim, é óbvio pensar que cada pessoa tem a sua própria subjetividade. É o que também nos faz únicos. Então, a partir desta premissa, mais uma questão entra em jogo em busca da fórmula do amor: Como dois universos completamente diferentes podem dar certo?
É cada vez mais comum vermos situações em que a paixão nos cega de começo, relevamos inúmeros defeitos, nos entregamos, nos envolvemos, e depois de um certo tempo, quando começamos realmente a ver “aonde nos metemos”, começamos a nos questionar se vale a pena.
É claro que em muitas relações, quando a paixão acaba e não é transformada em algo maior, mais verdadeiro, pode-se levar ao fim. Mas o que vemos muito, é que as pessoas não sabem lidar com o universo da outra.
Indo um dia para a faculdade de ônibus, me sentei ao lado de uma mulher que era casada há uns bons anos. Perguntei a fórmula, e ela me disse após algum tempo de silêncio:

- É pesar se sabe lidar com os defeitos da pessoa, se consegue suporta-los.

No momento não fez muito sentido, mas vejo que existe muito fundamento nisso. Depois que os defeitos começam a surgir, as divergências podem aparecer sem que queiramos... E aí se não existe um diálogo, uma “democracia das emoções”, fica cada vez mais difícil a convivência.
A democracia das emoções, é citada por ***Anthony Giddens, em seu livro “Mundo em Descontrole” – o que a globalização está fazendo em nós. A democracia das emoções se estabelece na comunicação emocional, qual “é importante para um bom casamento, mas não o seu fundamento. Para o casal, é. A comunicação é o meio de estabelecer o laço, acima de qualquer outro, e é a principal base para sua continuação”.
“A comunicação emocional está se tornando a chave para tudo que elas envolvem. O relacionamento puro tem uma dinâmica completamente diferente da de tipos mais tradicionais de laços sociais. Depende de processos de confiança ativa – a abertura de si mesmo para o outro. Franqueza é a condição básica da intimidade. O relacionamento puro é implicitamente democrático”.
E faz um paralelo entre a democracia na qual vivemos e podemos também aplicar em nossas vidas...
“Um bom relacionamento é o que se estabelece entre iguais, em que cada parte tem direitos e obrigações. Num relacionamento assim, cada pessoa tem respeito pela outra e deseja o melhor para ela. O relacionamento puro é baseado na comunidade, de tal modo que compreender o ponto de vista da outra pessoa é essencial. A conversa, o diálogo, é o que basicamente faz o relacionamento funcionar. O relacionamento funciona melhor se as pessoas não escondem muita coisa uma da outra – é preciso haver uma confiança mútua. E a confiança tem de ser TRABALHADA; não pode ser simplesmente PRESSUPOSTA. Finalmente, um bom relacionamento é aquele isento de poder arbitrário, coerção e violência”.
É óbvio que jamais encontraremos alguém que caiba perfeitamente em nossos sonhos, mas tem como acharmos alguém bem semelhante, pesando sempre se vale a pena lutar pelas divergências e nos complementar nas semelhanças, desde que se estejamos dispostos a compreender o universo da outra pessoa.
Nas amizades, existe uma cumplicidade, um carinho, um conhecimento do outro, porém não existe tanta expectativa, qual sem querer, colocamos quando estamos nos relacionando amorosamente. Ainda mais quando compartilhamos situações mais sérias, como filhos e contas a pagar.
Com muitos amigos, devido ao tempo de convivência e conhecimento daquele indivíduo, conseguimos compreender os universos – e defeitos – diferentes, construindo um bom relacionamento. Não deveríamos olhar o nosso parceiro de forma diferente. Pelo contrário. Se o seu próprio parceiro não tem conhecimento de suas sensações e pensamentos, fica difícil compartilhar muitas das outras coisas.
Não temos como negar que até mesmo as relações contemporâneas, por mais clichê que possa parecer, seguem o ritmo capitalista, de uso, rápido e rasteiro. Para não dizer talvez que tenham sido inspirados em esquemas “fast food”. Olhar na agenda telefônica, marcar o horário, algumas questões burocráticas – para alguns que ainda se importam -, e se ‘alimentarem’ mutuamente.
Em meio tudo isso, em tanta velocidade, é muito mais fácil e cômodo apostar em uma próxima pessoa – que não se demora muito para encontrar - , a se adequar, ter paciência e flexibilidade pra compreender os processos de cada um, e lutar por isso. Como serão os próximos casamentos do século XXI? Giddens aposta na “democracia das emoções”, e eu também.






Citados:
* Zigmunt Bauman, Amores Líquidos - sobre a fragilidade dos laços humanos.


***Anthony Giddens, Mundo em descontrole - o que a globalização está fazendo de nós. RJ, Record, 2003.

segunda-feira, junho 18, 2007

Ah...

Recomendação para leitura do texto: escute essa música ao fundo - e desconsidere o vídeo, por favor.

Então, vamos começar.

As lágrimas rolam pela face, mistos de sorrisos, memórias, saudades. Por dentro, satisfação, tranqüilidade e renovação. Gratidão que pulsa, gratidão por existir, por estar cercada de pessoas tão boas e bonitas. Por poder compartilhar coisas que me alimentam tanto... Por poder trocar experiências, desesperos e vitórias.
E o tempo vai passando, e por mais que certas coisas doam tanto, percebo a ligação entre os fatos, as conseqüências, as finalidades.
Realmente certas situações são como bumerangues. Quando não resolvidas, empurradas com a barriga, me deparo lá frente, levo um susto, mas depois percebo o sentido, faço a reflexão. Ciclos que não foram fechados e ainda precisam ser repetidos.
É interessante estar desperto. As vezes se vive como se estivesse dormindo. Realizando as funções básicas para a sobrevivência sem observar e absorver os detalhes, as delicadezas.
As vezes também se vive no passado. Mesmo sem querer, estou presa a memórias que vem e vão durante as atividades cotidianas, e acabo deixando o hoje passar, o agora, o que realmente importa. Ou se idealizo o futuro com todas as forças, e se aquilo não acontece, todo o resto perde o sentido.
Vi num filme uma frase muito interessante que ficou marcada. Que horas são? Onde você está? O que você é?
Para todas essas perguntas, as respostas podem ser: agora, aqui, este momento.
As vezes não temos a casa que gostaríamos, mas talvez seja é importante cuidar de verdade do que se tem, fazer daquele ambiente o seu ambiente, da sua forma, com as suas cores e seus cheiros. Acaba se tornando o lugar mais aconchegante do universo, aquele lugar que você pode levar os seus amigos mais íntimos e eles poderão sentir toda a vibração.
As vezes não temos todo o dinheiro que precisamos para determinada coisa, mas com paciência e sabendo aplicar tudo aquilo que temos amor e habilidade em trabalho, temos muita chance de aos poucos conseguir o resultado de tudo isso. ‘Um guerreiro não desiste do que ama’.
As vezes nos desesperamos pelo fato de não sabermos sair de determinado conflito, mas se soubermos nos voltar para nosso próprio ‘eu’, sermos mais humildes e admitirmos as falhas e impotências, ou se soubermos respeitar o tempo e a subjetividade das pessoas, fica mais simples a convivência humana.
Talvez não tenhamos a família mais unida, a família mais compreensiva, ou que tenha a ver conosco. Mas uma boa convivência independe disso. Me encontro plenamente grata por hoje conseguir ter uma relação saudável e PRAZEROSA com as pessoas que me colocaram no mundo. Nem sempre foi fácil conciliar as idéias diferentes, os desejos diferentes, mas tenho certeza de que se parei em determinado lar, talvez eu mesma tenha escolhido. Afinal, já consigo vê-los como amigos, como irmãos.
De que adianta vir a este mundo se de alguma forma não servimos? Qual a finalidade de existir? Comer, eliminar, reproduzir e trabalhar para manter uma posição e bens materiais? A sementinha de luz pode ser plantada a cada encontro. Dentro de casa, na casa de outras pessoas, com os amigos, os amores, e com a gente mesmo.
Podemos perder alguém de várias formas, quando menos esperamos, - ou deixar de existir também - o que fica é o a impressão que deixamos nos outros. O que contribuímos, alimentamos, ensinamos e trocamos.
É necessário nos conhecermos mais, cada cantinho do nosso próprio corpo, sentir a textura da pele, dos cabelos, cada cantinho de cada pensamento. É complicado as vezes conviver com outra pessoa se não conhecemos a nós mesmos. Nossas angústias, nossas carências, fraquezas. Podemos acabar transferindo para a outra pessoa aquilo que nos angustia, que nos pertence.
É necessário descobrir as nossas próprias habilidades, e saber valoriza-las. De nada adianta se sentir inferior quando todos estão aqui com um mesmo propósito: evoluir. As vezes sentimos medo de nossa própria luz e nos encolhemos. Ninguém ganha com isso. As pessoas não conseguem absorver tudo o que você pode passar de bom, assim como nos escondemos em temores, vivendo em cima de algo que não somos.
Carregar ressentimentos podem provocar doenças, somatizações, mal estar entre um monte de outras coisas cientificamente comprovadas. Pode ser tão simples saber perdoar. Parar pra pensar e perceber que não se tem um inimigo ou alguém que deixou de falar por uma situação mal resolvida, é uma sensação muito gostosa. As vezes o mais complicado é saber SE PERDOAR.
Não sei o propósito real de escrever tudo isso por aqui, mas se de alguma forma “nos encontramos” em algum trecho do texto, creio que tenha tido alguma finalidade.


Luz.

Recomendação de filme: PODER ALÉM DA VIDA – nada é por acaso.

segunda-feira, junho 04, 2007

Desaparecimento de uma mulher.

A mulher acordou tarde com uma leve dor de cabeça sob os olhos. Espreguiçou-se, colocou os pés no chão frio. Caminhou até o banheiro lentamente, pasta na escova e automaticamente se olhou no espelho enquanto escovava os dentes.
Aquela mesma sensação retornou sem que ela tivesse o controle. Se olhava no espelho e não conseguia saber direito quem estava ali. Quem era ela? Porque estava ali? Se questionava porque vinha ao mundo daquela forma e qual era sua função.
Bochechou, cuspiu a água na pia, lavou o rosto com a intenção de lavar a alma, mas era difícil. Não via saída para os problemas do trabalho, acabara de sair de um relacionamento desgastante, não tinha ânimo de sair com os amigos pra dar uma volta no quarteirão.
Sobrevivia. Do trabalho para casa. Em casa dormia, comia, dormia novamente, fumava um cigarro, via um pouco de tv passivamente, sem soltar um sorriso, uma lágrima, uma gargalhada.
Em seu quarto, já não ligava mais para a bagunça. Fazia o mínimo das tarefas de casa para se sentir menos culpada.
Voltou ao quarto, abriu o guarda roupa. A vaidade já não mais a pertencia. Nua diante do espelho olhava todas as suas curvas. Tinha um misto de raiva e nojo de si mesma. Se criticava em cada detalhe interiormente. Pegou uma meia calça e começou a vestir, notou que alguns dedos de seus pés tinham desaparecido. A primeira impressão foi um misto de medo e curiosidade, não tinha a mínima idéia porque aquilo havia acontecido. Mas conseguia ficar de pé, calçar os sapatos, andar normalmente. Em menos de dez minutos já havia se acostumado sem os dedos. Foi para o trabalho, produziu até onde achou que poderia.
Na volta, olhava as cores das calçadas enquanto dentro de sua cabeça só vinha seus atos falhos, o que fez de errado com seu amor. Andando pelas ruas notou que tudo estava num silêncio fora de normal. As pessoas falavam e das bocas nada saíam. Não ouvia o ronco dos motores, os barulhos normais de qualquer cidade. Levou a mão aos ouvidos e não sentiu suas orelhas.
Foi para casa correndo para se olhar ao espelho, e realmente era o que suspeitava. Suas orelhas também tinham desaparecido. Não poderia mais ouvir a televisão, o despertador tocar. Estaria
com alguma doença degenerativa?
Buscou na internet e todos os sites de busca que poderia. Enciclopédias, dicionários. Nada. Nenhuma pista. O mais curioso era que não sentia dor, não havia secreção. Simplesmente não sentia mais suas orelhas porque elas não existiam, e também não era mais capaz de ouvir qualquer ruído.
No entanto, pensou pelo lado positivo. Não iria mais ouvir a vizinha brigando com o marido, o cachorro pirando do outro lado da rua atrás da cadela.
Deitou no sofá e ficou observando o teto branco. Já tinha se esquecido de suas partes desaparecidas e novamente voltou a cuidar de seu manicômio mental. Imagens e cenas soltas, desde a infância à vida adulta. Não via saída para simples sentimentos. Estava presa à toda e qualquer situação que a tinha feito chorar, sofrer. Estava sem seu eixo, equilíbrio. Não havia mais ânimo para qualquer livro de auto ajuda. Já se esquecia aos poucos de quem era, esquecia suas habilidades, seus gostos, suas vontades e planos.
Adormeceu sem perceber.
Abriu os olhos assustada, tentou se mover e sentia que algo de muito ruim tinha acontecido. Levantou um pouco a cabeça, sem jeito e algum controle. Viu que seus membros inferiores já não estavam mais ali. Suas pernas e braços sumiram. Tentou abrir a boca para gritar, chamar ajuda, não a sentia também. Se debateu o quanto pôde no sofá para tentar fazer algum tipo de barulho. Esforço em vão. Chorou com toda a força que ainda pertencia aquele corpo. Só restava à ela olhar um teto branco, uma imagem vazia, sem textura, sabor, cheiro ou qualquer rastro de sensibilidade.
Os dias foram passando. Ela continou ali. Só podia olhar o teto. Aos poucos nem mesmo os pensamentos auto destrutivos continuaram. Sua mente que antes era uma caixa de entulhos, com pensamentos empueirados e fora de ordem, havia se tornado completamente vazia. Somente respirava e mantinha os olhos abertos em um único ponto.
Assim foi até não restar quase nada da mulher, até ela mesma não mais notar o que desaparecia, até desaparecer por completo.