segunda-feira, fevereiro 12, 2007

De Maria para João.

Seis aninhos de idade e ainda tinha muito o que viver. Não tinham o direito de o fazerem sentir dor, medo e angústia por um centímetro. E foram por sete quilômetros! Que sem dúvida, devem ter se tornado uma eternidade até o fim.
Fico pensando se fosse um filho meu. Ainda não o tive, mas não duvido de quanto deve ser gostoso pegar aquele ser tão indefeso e inocente nos braços, quando suas expectativas de vida, dependem de meu cuidado e de meu leite. Sinto que morreria junto.
Sete quilômetros. O que você pensaria se caminhasse durante sete quilômetros por aí? Quando caminho sem pressa, involuntariamente penso na minha vida, nas pessoas que amo, onde devo melhorar.
Os sete quilômetros de João foram completamente impensados por pessoas que com certeza, já estão perdendo a capacidade amar e até mesmo, amar a si mesmo.
Não existe exclusão social que justifique um roubo com este fim. Uma coisa é não ter o que outros tem, outra coisa é tirar a vida de alguém que não tem nada a ver com seus problemas materiais. Isso foi tortura. E aceitar que esses fatos aconteçam por aí, é mais uma ditadura abafada. Disfarçada entre códigos e penas.
Não vejo que somente prender seja a solução. Não sou ninguém para julgar, mas não consigo aceitar que apenas prender por esse tipo crime seja o mais correto.
A revolta tomou conta de meu coração sem que eu tivesse o controle.

João, encontre sua luz. Que todos os anjinhos do céu te acompanhem. Maria do céu te espera de braços abertos.

domingo, fevereiro 11, 2007

Saudades da Bahia.



Fui até a casa da vizinha de baixo para mandar a água para cima. Verão e é sempre a mesma coisa. A cidade sofre com a falta d’água, as pessoas se irritam por não conseguirem realizar tarefas caseiras.
Instalei a bomba com o meu irmão, fiquei segurando a mangueira. A senhora, dona da casa se aproximou e pediu para que eu enchesse um potinho com água para que ela molhasse as plantinhas.
Assim o fiz, várias vezes. Enquanto isso, observei como ela realizava aquela tarefa com tanto cuidado e dedicação. Não conheço muito de plantas e flores, confesso, porém as acho lindas e tenho certeza de que são capazes de dar vida a qualquer ambiente.
E fui perguntando os nomes e como tinham que ser cuidadas, ela falava enquanto virava a água. Entre orquídeas e samambaias, deixava respingar sem perceber na sua camisolinha branquinha e fina.
A senhora usava uma toquinha no cabelo, tinha os olhinhos vivos como se somente o corpo tivesse envelhecido. Completamente lúcida e ativa. A pele enrugadinha não tinha espaço e nem se sobressaía perante tanta vividez.
Conversa vai, assunto vem. Ela é da Bahia, “baianíssima”, como ela mesma disse. Morava ao lado do Bonfim. Com um suspiro, já sentada na cadeira, falava das praias, da comida, e eu transcendia nas suas palavras e histórias.
Perguntei se tinha saudades, nem sei porque o fiz, se já sabia que tinha, vendo o seu modo de relembrar os momentos. Porém, uma observação veio sem que eu esperasse: “Não dá para ficar só lembrando, agora eu moro aqui”.
E de um segundo para o outro, o assunto virou alegria. Carnaval, Rio, escolas de samba, folia.
Por tanto viajar nas suas palavras, acabei relaxando a mão que segurava a mangueira ligada à bomba e me molhei inteira. Ela riu, meu irmão sacaneou. Logo, com um sorriso simples no rosto, a senhora pediu licença e entrou. E eu fiquei ali, com a saia molhada, uma alegria tímida e instantânea, imaginando como seria sambar na Bahia.
Dedico esse post ao baiano mais carioca do meu coração. Beijos pra você, Heron!

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Eu já não sou o que eu era.



foto: eu neném.

Já dizia Heráclito (filósofo pré-socrático) que não se entra num rio duas vezes. As margens podem ser as mesmas, porém as águas que ali passam, jamais serão.
Heráclito também ficou conhecido pelo conceito filosófico “devir” – que qualifica mudança constante -.
Definitivamente, eu já não sou o que eu era - e ainda bem -. Prestes a completar dezenove anos percebo o quanto tudo se transformou... A textura dos cabelos, as formas do corpo, o olhar. Os sentimentos, pensamentos, conceitos e até várias “verdades absolutas”. O cabelo foi cortado de várias formas diferentes, o gosto pela roupa mudou constantemente, escuto o que nem conhecia algum tempo atrás...
Não me sinto somente nostálgica, também otimista. Perceber que a vida é constante movimento me dá a sensação de que não preciso ter muito o que temer. Tudo tem a sua hora, o seu momento, e tudo também pode mudar a qualquer momento.
Como observou bem Lavoisier com a frase “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" penso em quantas pessoas passaram pela minha vida. Umas passaram de fininho, outras de ladinho. Outras vieram ao meu encontro de braços abertos, deixando palavras inesquecíveis, marcando encontros rotineiros com muita luz e presença, simplesmente por existirem... Algumas eu entreguei meu sentimento, outras nem mesmo um sorriso. Independente de qual papel tenham exercido, todas foram fundamentais, fizeram e fazem parte de mim, parte do que hoje sou. Nada foi em vão, tudo se transformou.
E que continue se transformando, pois o tempo? “O tempo não pára” e não se sabe quando ele pode parar para algum de nós.
Com todo o tempo que passou, fico triste somente com uma coisa. A capacidade que as pessoas tem de julgar, inclusive eu também o faço em muitos momentos. Observamos atitudes, palavras soltas e comportamentos como se pudéssemos e fossemos exemplo de vida para julgar alguém. Quanto tempo perdido. Tempo em que se podia estar dando um beijo gostoso, trocando experiências construtivas ou simplesmente ficando em silêncio, porque ele também faz bem.
Pode parecer clichê, coisa de hippie ou sei lá mais o que... Mas o que eu levo disso tudo é o sentimento de que não temos o direito de destruir a potência e capacidades dos outros. Querer premeditar o futuro alheio apenas pelo o que achamos ver hoje. Determinar alguém em uma simples frase, ou até mesmo em uma palavra.A mudança é constante, muitas vezes repentina. Reconhecer as qualidades, pelo menos respeitar as diferenças, e perceber que qualquer um de nós está disperso no universo, pode ser um bom caminho para compreendermos nossos constantes movimentos.