sexta-feira, agosto 31, 2007

A moça e os desejos

Similar a um tufão em alto mar, a vi nadando num horizonte de incertezas. Ondas fortes, grandes e revoltas, adocicadas por pura inverossimilhança. As pernas adormeciam, os braços se cansavam. A moça precisava alcançar qualquer superfície sólida.
Por tanto relutar em meio à loucura do mar, exausta, ficou submersa a contemplar o azul anil do céu, era mais fácil boiar.
Ninguém sabia que ela estava perdida além dela mesma. Se morresse, jamais encontrariam o seu corpo. Era preciso esperar ou morrer nadando.
Até que de tanto esperar, de perder da noção do tempo, avistou um pequeno barco solitário. Tão perdido quanto ela em tamanha imensidão. Nadou lentamente, agora sentindo a calmaria. Pegou impulso e firmou bem os pezinhos dentro dele, percebendo o quão frágil era sua estrutura.
Passou a pontinha do dedo na vela do barquinho e inexplicavelmente, sentiu a textura fria se derreter entre os seus dedos. Tentou o mesmo com o chão do barquinho, e a cor vívida do marrom grudou em suas mãos. Era tinta, tinta fresca.
A moça sentiu medo, por instantes, do barquinho se dissolver completamente na superfície da água, porém, percebeu em seguida que aquela água em que nadava era uma simples mistura de tons azuis e verdes.
Algumas lágrimas rolaram pela sua face devido ao desespero do efêmero. Pode perceber que suas lágrimas eram feitas de água pelo seu sabor, no entanto, ao passar a mão pelo rosto, sentiu também um pouco de sua pele marcar suas mãos.
Não compreendia o que estava acontecendo. Tentava de qualquer maneira entender o porquê de tudo estar com uma conotação pinturesca, levando-a a pensamentos completamente pitorescos a respeito de sua realidade.
Observando o céu, percebia o quão solitária estava. Só queria gaivotas a voar e poder contemplar aquela sina de pescar.
Parecendo mais um feito divino – ou ironia do destino -, gaivotas surgiram no horizonte, marcando o céu azul com o movimento de suas asas, deixando um pouco de tinta para trás.
A moça sentiu extrema alegria. Não estava completamente sozinha, sentia a vida pulsar nas gaivotas leves. E exatamente por estar tomada por aquela excitação da felicidade, notou que o céu ficara mais iluminado e bonito. Alguma coisa de muito curiosa estava acontecendo e ela podia intuir.
Fechou os olhos rapidamente e buscou todos os sentimentos de tristezas e dores possíveis, logo, ao erguer suas pálpebras, o ambiente estava completamente inóspito, assustador.
Assim, começa a reinventar todos os seus desejos para desfruta-los. É tomada por um sentimento de ansiedade e decide uma praia desejar, uma casa para morar e um cachorro para cuidar. Decide ser real, não mais de tinta, e sim de carne e osso. Humana.
Seus desejos vão surgindo até sentir seu coração palpitar verdadeiramente dentro de si mesma, abandonando por completo a textura pinturesca.
Andando pela areia, com o barquinho atracado, agora de madeira, percebe que só faltava um amor, um amante. E de olhos muito abertos para poder apreciar o momento da criação e existência do tão esperado ser, deseja com todo o seu coração. No entanto, a somente ouvir o barulho dos ventos em seus ouvidos, jamais escutou a voz de seu amante. Pertencia agora à realidade, onde os desejos não mais obedeciam ao seu bel-prazer.

quarta-feira, agosto 29, 2007

- Tempo, senhor do tempo.

As vezes é preciso pedir tempo. Pedir tempo para si mesmo. Um tempo independente do século em que se vive ou o espaço a que pertence.
Silêncio e tempo são um casamento perfeito para a introspecção. De nada adianta pela paixão viver, na escuridão respirar, sem fazer sentido. É preciso de tempo pra assimilar o sentir, redescobrir algum sentido.
Talvez o tempo também leve um pouco da veracidade do momento. Deixe depois de algum tempo, lembranças espalhadas pelo quarto, em cartas, em fotos, e quem sabe numa memória seletiva.
Maria pede tempo ao senhor juiz. O senhor juiz do tempo, invisível e existente, aceita sem hesitar. Maria não sabe se é certo ou errado, simplesmente está fazendo.
O desejo pelo tempo surge pela necessidade de descanso. Maria descansa nos braços do senhor do tempo, e de olhos fechados, sorri. Ela aposta no tempo para acordar leve, renovada e enfim poder acertar o horário de verão.

terça-feira, agosto 28, 2007

As ebulições de Lucila

Lucila acordou inquieta. Não sabia se tinha fome, sono ou preguiça.
Foi até a cozinha, preparou algo para comer como de costume, como em todas as manhãs. Mais pelo costume do que verdadeiramente pela fome.
Voltou ao seu quarto e começou a sentir certa repulsa pela bagunça sob a cômoda. Pegou a vassoura, pano, cera e começou a limpar compulsivamente seu ninho.
Sem ao menos perceber, se movimentava entre lágrimas e soluços ininterruptos.
Sentia desejo pelo menos de ouvir música. Pelo menos isso. Aproximou-se de seus vinis, escolheu Chopin e se deleitou em suas óperas. Chopin aos poucos fez Lucila se acalmar... Os intervalos entre as lágrimas foram desacelerando.
A moça, Lucila, não compreendia as origens de seu drama. Não sabia porque chorava e nem se devia continuar chorando. Esforçava-se em entender, cobrava de si mesma se entender, mas nada de muito claro vinha à tona para sua consciência.
Resolveu deixar Chopin penetrar. Percebeu que era a trilha sonora de um filme que gostava chamado The Piano, 1993.
Imaginou, esparramada pela cama, como seria o resto de sua semana, os próximos meses e até mesmo o fim de ano. Natal, porque todo ano tinha Natal?
A troco de quê tanto correr, tanto se aperfeiçoar, tanto cumprir, tanto existir?
Existir era para ela uma das coisas mais difíceis da vida. Não existia manual de instruções, muito menos uma pílula que gerasse sensação de felicidade, dor ou tristeza.
Lucila quando acorda todos os dias e se olha no espelho, percebe que já não é mais a mesma, percebe que está diferente e está a mudar a cada respiração. Não sabe ao certo para onde caminha, porém continua caminhando. A troco de quê? A troco de quê caminhar? Será que Lucila encontrará respostas para suas angústias sem fim?
Talvez agora, já mais moça, mais mulher, Lucila esteja vendo nuances antes não percebidas, esteja vendo um mundo que não sabe se quer pertencer, aposentando as lentes cor-de-rosa. Talvez isso assuste Lucila, qual sempre preferiu sonhar acordada a pisar forte no chão mesmo em sonho.
Para ouvir o mesmo que Lucila:
Abrir - Piano Concertos No. 1 e No. 2 - Frédéric Chopin.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Mateus?

Comentaram no meu blog e eu não faço idéia de quem seja. Um tal de Mateus. Mateus sem H. Sem pistas, sem endereço de blog pra entrar. Só sei que comentou em um post de junho e outro de julho.
Quem será Mateus? Eu conheço alguns, mas tudo com H. Acredito que não seja alguém que conheça pessoalmente – e se conhecer, me desculpe a falta de nem sei o quê...
É engraçado abrir minha página que não é nada conhecida, onde só os conhecidos comentam e muito raramente mesmo algum “estranho”. Estranho que é sempre bem vindo, por favor.
Mas é engraçado porque eu fico curiosa. Eu fico, antes de tudo, imaginando como a pessoa entrou aqui. Depois, fico imaginando da onde a pessoa é, e pra finalizar, como a pessoa é, do que ela gosta, como anda e sorri.
Tudo bem, foi só um comentário... Eu sei. Mas eu gostei dos comentários e gostaria de poder retribuir com um agradecimento. Um singelo agradecimento em post, já que não tenho como agradecer em outro blog porquê o safadinho do tal de Mateus não deixa pistas.
Você é tímido, Mateus? Ah, não precisa disso.Obrigada por entrar aqui e deixar a sua marquinha, mesmo sendo você quase inidentificável.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Eterna meninez



Delícia é poder lembrar de minha ‘meninez’
Fantasias de carnaval
Brincadeiras sem noção de tempo
Inocência nos sonhos e pensamentos.

Nunca fui a menininha mais cotada,
Muito menos a mais desejada
Sabe, nunca gostei muito disso.
Até que andei com as convencidas...
No entanto, algo dentro de mim não cintilava
Não permitia.

Lembro como hoje que gostava das apresentações
Dançarina, fadinha, bailarina... e São João.
Nunca fui de matemática,
Sempre por obrigação.

Os olhos são os mesmos,
Porém com outro olhar.
As vezes mal me reconheço a relembrar...

Quanta alegria em ver o corpo crescer,
E o cabelo revoltar.
Quanta magia em perceber que num outro dia
Ainda diferente vou me notar.
Cativa-me você, pequenez de mim.