terça-feira, agosto 28, 2007

As ebulições de Lucila

Lucila acordou inquieta. Não sabia se tinha fome, sono ou preguiça.
Foi até a cozinha, preparou algo para comer como de costume, como em todas as manhãs. Mais pelo costume do que verdadeiramente pela fome.
Voltou ao seu quarto e começou a sentir certa repulsa pela bagunça sob a cômoda. Pegou a vassoura, pano, cera e começou a limpar compulsivamente seu ninho.
Sem ao menos perceber, se movimentava entre lágrimas e soluços ininterruptos.
Sentia desejo pelo menos de ouvir música. Pelo menos isso. Aproximou-se de seus vinis, escolheu Chopin e se deleitou em suas óperas. Chopin aos poucos fez Lucila se acalmar... Os intervalos entre as lágrimas foram desacelerando.
A moça, Lucila, não compreendia as origens de seu drama. Não sabia porque chorava e nem se devia continuar chorando. Esforçava-se em entender, cobrava de si mesma se entender, mas nada de muito claro vinha à tona para sua consciência.
Resolveu deixar Chopin penetrar. Percebeu que era a trilha sonora de um filme que gostava chamado The Piano, 1993.
Imaginou, esparramada pela cama, como seria o resto de sua semana, os próximos meses e até mesmo o fim de ano. Natal, porque todo ano tinha Natal?
A troco de quê tanto correr, tanto se aperfeiçoar, tanto cumprir, tanto existir?
Existir era para ela uma das coisas mais difíceis da vida. Não existia manual de instruções, muito menos uma pílula que gerasse sensação de felicidade, dor ou tristeza.
Lucila quando acorda todos os dias e se olha no espelho, percebe que já não é mais a mesma, percebe que está diferente e está a mudar a cada respiração. Não sabe ao certo para onde caminha, porém continua caminhando. A troco de quê? A troco de quê caminhar? Será que Lucila encontrará respostas para suas angústias sem fim?
Talvez agora, já mais moça, mais mulher, Lucila esteja vendo nuances antes não percebidas, esteja vendo um mundo que não sabe se quer pertencer, aposentando as lentes cor-de-rosa. Talvez isso assuste Lucila, qual sempre preferiu sonhar acordada a pisar forte no chão mesmo em sonho.
Para ouvir o mesmo que Lucila:
Abrir - Piano Concertos No. 1 e No. 2 - Frédéric Chopin.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

*Blog-msn, não foi a inteção^^.

Existir aflige Lucila, e não por acaso é o tema de uns clichês-cults mais recorrentes:
"Cogito, ergo sum"
"To be or not to be, that´s the question" e por aí vai.

- The Piano - é o filme em que há uma mulher tocando na praia?

Não, eu nã ovi o filme, só umas partes. Mas acho que há uma cena assim...

"sob a cômoda" ficou estranho... não seria "sobre", tá certo que pode ser "sob" também, a poeira e tudo mais [já que ela pegou a vassoura].

"Lucila, qual..." - "que" - fica melhor

Ouvirei o mesmo que Lucila com mais calma depois.

Fome, sono, preguiça....eu costumo ter preguiça. =)

9:10 PM  
Blogger Unknown said...

É, "O Piano" é um filme belíssimo, pra mim um dos que mais toca na alma humana, assim como "Um Sonho de Liberdade" e "Sociedade dos Poetas Mortos".
E confesso que foi muito bom ler o texto ouvindo a música. Bah tchê, acho que essa é uma das coisas que me capturou nos escritos da Nina: os textos e seus pares (músicas e afins) mexem demais com as sensações e os sentimentos. E realmente, aposentar as lentes cor-de-rosa é uma das tarefas mais complicadas da vida. Mas, faz parte! Isso é vida que venta e que segue!

10:14 PM  

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