quarta-feira, julho 25, 2007

Ao som da valsinha.


Fui até o quarto de minha mãe esperando encontrá-la acordada. Ela dormia toda encolhidinha na colcha, parecia mais um bebê. Senti um afeto tão grande, um amor incondicional e inexplicável...

Deitei ao seu lado devagar para não acordá-la, o que acabou acontecendo. Ela passou o braço pela minha cabeça me abraçando forte.

- Minha filha... Acabei de sonhar que você vinha falar comigo...

A abracei mais forte. De seu quarto podia ouvir a música que vinha do meu. A waltz for a night, uma deliciosa valsinha cantada por Julie Delpy, do filme Antes do pôr- do-sol.

Fechei os olhos e pude sentir o coração de minha mãe bater. Tudo em poucos instantes fez tanto sentido... Eu poderia morrer naquele momento. Uma sensação de dever cumprido, de extrema felicidade, como se não houvesse nada melhor para se viver e tudo o que vivi tinha sido intenso e maravilhoso.

E assim ficamos por alguns minutos, até que ela adormeceu completamente.

Em minha cabeça, nenhuma preocupação. Em meu peito, um êxtase de carinho, amor e saudade que me fazia quase sentir o gosto do paraíso.

Nos imaginei mais velhas... Ela com as mãos cheia de ruguinhas e eu com o cabelo completamente branco, tomando café e comendo bolinho, contando histórias sem sentir o tempo passar.

Pensei... Como é bom viver, respirar, poder a cada dia tentar fazer diferente. Poder encontrar pessoas tão afins e tão diferentes. Como é bom saber que não sou eterna e nada é.
Levantei devagar e caminhei lentamente para o meu quarto com a sensação de que podia voar.
A waltz for a night:

domingo, julho 15, 2007

Reflexões.


Reflexões sobre “As cidades da falta” – Luís Antônio dos S. Baptista


Quando vamos pela primeira vez a algum lugar, observamos com mais facilidade as nuances e os detalhes, a arquitetura, os ambientes e tonalidades; como se quiséssemos absorver toda aquela atmosfera que para nós não nos é comum.
Foi exatamente o que fiz por esses dias, involuntariamente, ao andar pelas calçadas de Macaé, já não tão mais macaenses assim. Misto de cheiros, sotaques, vestimentas. Um Chinês falando um típico mandarim na esquina, uma secretária falando inglês ao celular. Trabalhos formais, informais, sacoleiros, camelôs, contratados, moradores de rua, prostitutas e crianças ao voltar da escola.
Todos a dividir um mesmo espaço em calçadas, dividindo de um mesmo ar abafado aos trinta e poucos graus de temperatura.
Quanta mistura! Quanta vida em plena cidadela de interior.
Curioso foi me encontrar justamente nas palavras de Luís Antônio Baptista, em seu digníssimo texto “As cidades da falta” na mesma semana de observação de minha cidade.
Com uma leitura minuciosa – e mais dedicada -, pude despertar muito mais para as situações invisíveis, e meu olhar de “turista”, aquele capaz de reparar mesmo uma sujeirinha na calçada, se tornou muito mais apurado.
Antônio retrata incessantemente durante sua obra, quase como um refrão musical, as inúmeras situações contemporâneas pela qual estamos quase sempre cegos.
Citando como “guerras invisíveis das cidades do capital”, dimensiona paralelos entre mortes “imperceptíveis” de civis aos olhos dos transeuntes das cidades, abaixo de uma bela construção notável.
Ressalta, com um certo tom rítmico, as falhas que a própria sociedade produz devido ao modo de se viver atualmente, os valores, os hábitos, costumes, e o próprio sistema capitalista, que a base se encontra no poder para poucos.
O Estado, o exército, a polícia e até a mídia, sempre encontram uma boa maneira de minar todo o “lixo” urbano, as situações desnecessárias e invisíveis para a cidade.
Lixo gerado pelas falhas, pelas constantes carências.
Por conseguinte, muitas dessas falhas, no fundo, podem ser bastante lucrativas para a cidade. Vide o paralelo a seguir: Caso sempre haja lixo, sempre haverá lixeiro.
É na cidade em que muitos processos subjetivos acontecem. A mudança de paisagem está diretamente relacionada ao processo de transformação do indivíduo, toda sua forma de se relacionar, viver, existir.
É inevitável negarmos que o “urbano” está cada vez mais camuflado pelas táticas de poder, através das construções gigantescas, das tinturas, dos títulos, das instituições, etc.
Favela não é sinônimo de criminalidade, assim como prédio imponente não necessariamente é construído de dinheiro limpo, digno. Não se tem certeza de nada. Não se sabe onde mora o perigo.
As paisagens também acompanham os passos – ou seriam motores? – velozes do homem atual, qual se torna míope e tem sua mente voltada somente em um ponto: o seu objetivo, o seu interesse momentâneo.
Todas essas carências de sensibilidade, pouca preocupação com outros indivíduos tão iguais a nós, com o nosso próprio meio e futuro geram um processo generalizado de outras carências.
Os muros e grades erguidos pela violência, refletem na subjetividade de todos nós, alimentando cada vez mais a sensação de desconfiança e solidão.
Como também a sede pela velocidade, tanto de conhecimento, quanto de conquistas de bens materiais, a selva do capital engole tudo o que pode, gerando a sensação de vazio generalizada, de uma meta nunca conquistada, de algo insaciável.
E em meio tantas reflexões percebo que prefiro ser uma turista de mim. Observar e redescobrir cada cantinho de meus pensamentos, valores e atitudes. Observar meus cidadãos invisíveis que dormem nas sombras e vem à luz através dos encontros.
É preciso “introduzir linguagem onde há silêncio”. Principalmente nas Cidades da Falta, onde mais encontramos paisagens mudas, porém existentes, que estão a pulsar e influenciar de alguma forma nossas vidas.
Porque não tentarmos admitir o ‘pseudo-invisível’ como a mais pura realidade da sociedade? Afinal, pode até ser mais fácil camuflar, maquiar ou esconder, porém de alguma forma sofremos conseqüências constantes dessa eterna insistência de nos auto-enganarmos.




Citado:
BAPTISTA, L. A. S. . As Cidades da Falta. In: Antonio Lancetti. (Org.). Saúde Loucura - Subjetividade. 1 ed. São Paulo: Hucitec, 1997, v. 1, p. -.